domingo, 6 de dezembro de 2009

Texto 6: Artigo sobre o "protagonismo" do negro na TV

Segue abaixo um texto especial que fiz sobre o "protagonismo" do negro na TV para a disciplina Comunicação e Ética. Leiam.
_______________________________________
O troco do tapa
Por Jairo Santana

Em Viver a Vida, Novela das Oito da Globo, Helena (Taís Araújo), ajoelhada, chorosa, resignada está diante de Teresa (Lília Cabral), ex-mulher do atual marido da primeira, em pé, olhos firmes inquisidores, boca cerrada, odiosa. Luciana, a mimada filha de Teresa, havia sofrido um terrível acidente que a deixara tetraplégica. Helena se sentia culpada (?) pelo acidente e foi a Teresa para implorar seu perdão, já que ela havia lhe confiado a guarda de sua filha mais amada. A bofetada de Teresa na face de Helena formou um ângulo de mais ou menos 90º em relação ao lindo rosto de Taís. Violência.

Era a “devolução” do tapa que Helena havia “emprestado” para Luciana numa tola discussão que serviu apenas para justificar que madrasta e enteada viajassem separadas: Helena, num carro de luxo, Luciana, num ônibus lotado com outras modelos. O carro da modelo principiante (Luciana) capotou e… leia acima.

*RACISMO EM CENA* – Já tem um tempo que não vejo novelas durante a semana. Não estou cá a me servir da esquiva da pretensa intelectualidade para julgar incompatível com o lazer de um “discente-decente” a apreciação de uma boa obra folhetinesca da Globo – esta emissora, raiz de todo o mal, a Power Ranger má, detentora-mor dos poderes jaspiônicos de transformação do mundo real em miniatura de Castelo de Grayskull. Não é isso: é pura falta de tempo. Aos sábados, gosto de ver Viver a Vida. Assisto até à última gota de lágrima do depoimento de pessoas “reais” que encerra a trama. Uma distração.

Somente agora que já cansei o leitor é que toco no elemento adjacente da polêmica cena: a forçosa interpretação de iminente conteúdo racista. Difícil crer nesta tese, mas o fato de a primeira personagem negra a ter o prazer de integrar o rol das “Helenas de Manoel Carlos”, na novela de maior audiência e repercussão do Brasil, ter sido estapeada por uma “branca” causou alvoroço. Pode-se explicar tal catarse pela vigilância de alguns setores sociais sobre o conteúdo da novela desde que foi divulgado que a “Helena” seria jovem, negra e bem-sucedida.

O fato de se poder reclamar do conteúdo da cena já é algo louvável. A cena, no entanto, não teve absolutamente nenhum cunho racista, pois estava inserida no contexto de abnegação da personagem. O tapa, no da revolta da mãe que precisava culpar alguém pela desgraça da filha. A protagonista continua sendo a “boa”, capaz de atitudes nobres e de reconhecer seus erros – mesmo quando inexistentes. Assim se constrói a preferência do público pela protagonista – e se forma as características da vilã, especialmente pela rivalidade à figura “boa” da história. É o que filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche destaca, em Genealogia da Moral, como a construção dos conceitos de “bom” e “mau”, a partir da ascensão da moral cristã como predominante. “Se sou ‘bom’, logo o outro é ‘mau’”, diria o escravo, em relação ao seu senhor.

A fórmula se manterá a mesma: ao final, como sempre ou surpreendentemente, seja branca, preta, azul, verde ou cor de abacaxi, a protagonista tem reservado para si um final feliz junto ao “mocinho” (José Mayer) ou outro galã que encontrar no meio do percurso. É a normalização da situação do negro. Sim: uma protagonista negra é uma protagonista como outra qualquer. Coisas de Manoel Carlos.

Ao levar o tapa, Taís Araújo, excelente atriz e negra – e não uma “atriz negra” sentiu a dor do parto do protagonismo do negro em horário nobre. Coisa difícil é fazer uma “protagonista negra”: qualquer deslize pode passar a idéia de preconceito racial. Maneco estabeleceu assim, por segurança, a Helena de sempre com cara mais abrasileirada. Pouco se muda nos trejeitos, na segurança da personagem que é sempre a mesma, mas já foi interpretada por Maitê Proença, em Felicidade (1991), Vera Fischer, em Laços de Família (2000), Helena Ranaldi, em Presença de Anita (2001), Christiane Torloni, em Mulheres Apaixonadas (2003) e três vezes por Regina Duarte (em História de Amor (1995), em Por Amor (1997) e em Páginas da Vida (2007)). A cena em destaque poderia ser feita por qualquer uma destas atrizes sem muito alarde. A questão racial não entra na cena, não cabe. Não coube.

Taís já tem larga experiência como protagonista. Em Xica da Silva, de 1996, sucesso em audiência na extinta Rede Manchete, foi a primeira protagonista negra de uma telenovela brasileira, protagonizou outra novela de grande sucesso, na Rede Globo, em 2004, Da Cor do Pecado, sendo a primeira protagonista negra da Globo. A partir daí, tem ocupado papéis de destaque nas tramas de que participa.

*PROTAGONISMO NEGRO* – É interessante esta nova fase em que a televisão “descobre” o negro para torná-lo protagonista. Papéis secundários continuam sendo preenchidos por negros, o que se percebe claramente no mero exame da presença em cena de negros nas novelas globais, desde os figurantes ou atores com direito a cinco ou seis palavras – considerando os monossílabos e artigos definidos. Mas se percebe que há uma presença muito maior do que antigamente. Na novela das seis, Cama de Gato, Camila Pitanga é a protagonista e, em Malhação, alguns personagens são negros. Em Caras e Bocas, a novela das sete, vê-se ao menos dois negros com histórias que têm algum destaque na trama: Rafael Zulu, vivendo o personagem Caco, inserido justamente para discutir racismo, e a Sheron Menezes, vivendo a nova-rica Milena. Os dois formam casais multirraciais.

Mas o mais impactante é o caso do seriado Ó Paí Ó, que tem mais de 90% do elenco de negros. O baiano Lázaro Ramos, o Roque, é o protagonista e a maior parte do elenco é do Bando de Teatro do Olodum. O dialeto baiano ousa ser falado em rede nacional e o Pelourinho que os turistas não vêem é dado a conhecer. As mazelas e os conflitos religiosos que se proliferam largamente em nossa cidade são colocados de forma cômica, mas a crítica à “sociedade baiana”, altamente racista, é engajada e presença garantida em todos os episódios. Uma oportunidade para que grandes talentos sejam postos em evidência.

O que dizer deste crescimento (ao menos) quantitativo da presença e protagonismo de negros na TV? No mínimo, devemos lembrar que ainda constitui um tabu esta situação. Como todo tabu, sua tentativa de quebra gera repercussão. A televisão, veículo movido a dinheiro, necessita que esta atenção gerada se converta em audiência. Somente o fato de a Helena ser negra já garantiu holofotes à trama. Taís Araújo precisa, então, de uma atuação digna de “Helena” para não ser considerada apta apenas pelo fato de ser negra. Mais o caso de Ó Paí Ó é emblemático: é líder absoluto de audiência, elevando os índices da Globo de 15 para 24 pontos de média em São Paulo. Em Salvador, o seriado crava 46 pontos de média, audiência somente igualada pela Novela das Oito. Imbatível. A questão, examinada pelos olhos da lógica, é claramente comercial. Não se vislumbra um interesse na inclusão social ou repúdio ao racismo, mas o caminho para a superação deste entrave à igualdade é justamente este: o da naturalização das funções dos negros na sociedade. Nada mais normal que o negro ser protagonista.

Nenhum comentário:

Postar um comentário