domingo, 6 de dezembro de 2009

Texto 4: Reportagem no Jornal da FACOM

Publico agora a reportagem que fiz, em parceria com Joaci Conceição, para a edição do segundo semestre de 2008 do JORNAL DA FACOM. Leiam.
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E o Ara, já era?

Crise no Instituto Ara Ketu pode deixar sem utilidade quadra que custou 950 mil reais e mais de 300 crianças ociosas.

O Instituto Educativo e Cultural Ara Ketu (IAK) vive uma grave crise financeira desde 2005, devido às dívidas trabalhistas e à falta de ajuda estatal. Sua fundadora e presidente, Vera Lacerda da Silva, que é também dona do bloco de carnaval Ara Ketu, diz que a ausência de convênios governamentais é conseqüência de débitos com o Estado.

O IAK foi fundado em 1997 e não tem qualquer ligação com o famoso bloco, conforme enfatiza Vera. O instituto nasceu como uma escolinha de percussão que formava músicos para o bloco, passando a oferecer, em parceria com outras instituições, diversas oficinas profissionalizantes, após a construção do barracão na Rua Pedro Reis Gordilho, 38A, no bairro de Periperi, em Salvador. O instituto cedia o espaço para os cursos, que duravam em média 8 meses. O número de alunos matriculados ultrapassava 1.200.

Entre 2000 e 2005, a Bahiatursa (Empresa de Turismo da Bahia), a Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Bahia (SEC) e a Secretaria Municipal de Educação de Salvador (SMEC) foram os principais parceiros do instituto. Deixaram de ser. Vera atribui o corte das verbas oficiais às dívidas referentes a impostos. “Seria necessário apresentar certidões emitidas pelo Governo e, como eu estou em débito, não foi possível (a renovação)”, acredita. Não faz qualquer ligação entre a perda da bolada estatal à troca de comando no governo estadual.

O instituto, que já teve 25 funcionários, hoje só apresenta 6. Os instrutores recebem ajuda de custo das instituições que ainda mantém os projetos. E o número de jovens que freqüenta os cursos não passa de 260, dos 560 matriculados, conforme esclarece Antônio Carlos, o Tonca, coordenador do IAK.

Os cursos também não são mais os mesmos: funcionam apenas os de corte e confecção, de boxe e capoeira. Na área onde aconteciam as oficinas foi construída uma quadra para aulas de basquetebol, voleibol, futsal e handebol. Mais de 950 mil reais foram gastos para construção da quadra e da pista de atletismo entre 2004 e 2005. As aulas na quadra eram financiadas pela Fundação de Apoio ao Menor de Feira de Santana (FAMFS), através do Projeto Segundo Tempo, do Ministério dos Esportes.

A FAMFS decidiu não renovar o contrato com o instituto. Vera Lacerda diz não saber o motivo da recusa. Esta atitude da FAMFS vai prejudicar diretamente cerca de 300 crianças que estavam matriculadas no projeto, caindo de 8 para 3 o número de cursos no Ara Ketu.
Alguns professores, como é o caso de Ronaldo Cavalcante, gostariam de continuar com o trabalho voluntariamente, o que não será possível – o IAK acumula uma dívida trabalhista e procura precaver-se de contestações futuras. “As dívidas são decorrentes de ex-funcionários de projetos que acabavam e que diziam que continuariam conosco e depois me acionaram na justiça. Também mães voluntárias que vinham ajudar na merenda me acionaram na justiça do trabalho”, conta a presidente do IAK.

A dívida da ONG passava de R$ 144 mil em 2007. “Crise financeira tem, mas não está mais neste valor, porque está na justiça e a gente está pagando. Teve gente aí que eu até já liquidei, já não deve mais, mas, assim com uma dificuldade muito grande, porque a gente que tá tendo que arcar com tudo isso”, apontou Vera.

Além da FAMFS, o instituto abriga projetos do Centro de Educação e Cultura Popular (CECUP), com oficinas de boxe e capoeira, que atendem cerca de 220 crianças e jovens de 07 a 18 anos. A CECUP paga aos instrutores e ainda oferece a merenda para os alunos. Para Ana Cátia Santos, mãe de aprendiz de capoeira, faz muita diferença ter um professor proveniente da comunidade, pois o grau de comprometimento é maior, considerando que, a maioria, é autodidata, como é o caso dos instrutores do IAK, captados dentre os moradores locais.

A área que deveria servir de praça de atletismo, abandonada, está sendo utilizada por usuários de drogas, o que torna o espaço perigoso. Vera Lacerda diz ter feito o projeto e mesmo assim não conseguiu recursos, o que transforma a praça de atletismo em praça das drogas. Para Ana Cátia, sua filha está segura dentro do Ara Ketu. Porém, os professores, principalmente os da comunidade, alertam os pais pra acompanhar seus filhos. “Pra não se misturar com usuários ou traficantes de drogas, que têm aumentado na área”, segundo o professor de capoeira Samuel Freitas Santana.

“Eu preferia muito mais trabalhar com o privado do que com público, mas as empresas têm medo da fiscalização”, diz Vera Lacerda, com a tranqüilidade de quem não vê problemas no fato de organizações não-governamentais receberem recursos públicos. Para ela, as empresas privadas precisam ser mais sensíveis às questões sociais. A ineficiência do Estado brasileiro a falta de investimentos sociais do setor privado contribuem para o aumento do número de Ongs e a profissionalização do setor.


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