Abaixo, para quem se interessar, um texto que fiz em relação ao "Chacina de Mussurunga" ocorrida no começo de 2008 e que vitimou 7 pessoas. Não foi publicado.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA – UFBA
FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – FACOM
CURSO SUPERIOR DE JORNALISMO
ESTUDO ORIENTADO EM JORNALISMO – PROF. MALU FONTES
JAIRO SANTANA
MUSSURUNGA E O CRESCIMENTO DA VIOLÊNCIA EM SALVADOR
A COBERTURA DA IMPRENSA BAIANA
NOVIDADE – A violência finalmente parece ter chegado ao conhecimento da imprensa, especialmente a local. Os casos de violência foram agendados a partir da repercussão do massacre de Mussurunga, chacina ocorrida na madrugada do dia 08.06, onde foram mortos sete trabalhadores. “Celebrada” como a maior chacina da história da Bahia, o noticiamento do fato sinaliza uma mudança na cobertura policial feita pelo jornalismo baiano. Baiano não está acostumado a ver assassinatos no atacado serem noticiados no BATV ou até mesmo no jornal A Tarde – e está aí o seu ineditismo.
Salvador “descobriu” que vive numa verdadeira guerra urbana através dos nossos noticiários televisivos e dos principais jornais do estado, o inexpressivo Tribuna da Bahia, o “inovador” Correio da Bahia e o “gigante” A Tarde. Diversas chacinas ocorrem com periodicidade inimaginável em Salvador e região metropolitana, sem nunca serem noticiadas. Neste caso, porém, houve uma ampla e diferenciada cobertura nos dois principais segmentos, o impresso e o televisionado, porém com um aspecto em comum: o não aprofundamento na questão da verdadeira causa da violência – entenda-se, a falta da presença efetiva do Estado nestes bolsões de miséria.
MAIOR DA SEMANA – Em primeira instância, devemos considerar o equívoco da imprensa ao qualificar o assassínio dos 7 de Mussurunga como “a maior chacina da história da Bahia”. Convenhamos: não temos como saber. Caberia o uso, por fidelidade aos fatos, da expressão “a maior chacina de que se tem notícia”, e não “a maior”. Talvez a imprensa tenha utilizado tal advérbio solto na frase para justificar o destaque conferido a um fato corriqueiro (banalizado) – especialmente nos bairros da periferia da cidade, muitos dominados por reis do tráfico. Os traficantes de Mussurunga não foram empossados na semana anterior ao massacre, vertendo o sangue dos proletários dias depois. Esta questão da constituição de um Rio de Janeiro berimbaleiro já era de pleno conhecimento, especialmente dos moradores locais, que não têm a quem recorrer. Moradores de Periperi, por exemplo, convivem com assassinatos e assaltos quase diários. Outras mortes não estamparam A Tarde/Tribuna/Correio.
CORREIO – Os jornais se ativeram na questão da violência como algo pontual e específico dos locais dos acontecimentos, transparecendo certo preconceito dos jornalistas em relação aos assassinados-chacinados. A exceção do impresso – no que tange à questão do preconceito e à busca do aprofundamento – ficou por conta do tratamento da notícia conferido pelo jornal soteropolitano Correio da Bahia, que trouxe uma boa cobertura, com um pé no jornalismo literário e outro no melodrama. Antes de chegar ao fato, trouxe uma boa definição da palavra chacina. Esta palavra, em si, já guarda muito preconceito e só a sua citação para tratar do assassinato brutal de pessoas já seria uma afronta ao bom senso.
Com um bom começo, o texto do jornalista Alan Rodrigues (Correio da Bahia. Aqui Salvador, 09.06.2008), prosseguiu muito bem elaborado, trazendo a memória das vítimas como seres humanizados, trabalhadores – e não um simples número da estatística oficial. Não fugiu do maniqueísmo, porém, não o assumiu por inteiro. A definição dos assassinados como indivíduos incapazes de ter alguma relação com os bandidos serviu apenas para sustentar a tese da omissão do Estado perante as mazelas e demandas da comunidade local. Dizer que alguns deles poderiam ter envolvimento com o tráfico somente provocaria na população o sentimento de expurgo de toda a bandidagem, o que o jornalista pareceu querer evitar. As vítimas eram, essencialmente, pais de família, trabalhadores que se divertiam após uma longa e pesada jornada de trabalho. Morreram porque o Estado, por omissão inexplicável, deixou-os a mercê dos bandidos.
Boa – apesar de sensacionalista – foi a escolha do título da notícia: “Sete pessoas morrem em chacina de Mussurunga”. Normalmente, os jornais impressos excluem a palavra “pessoas”, quando se referem às “pessoas” pobres. Como quem diz nas entrelinhas que os pobres não são pessoas. O Correio foi o impresso que melhor desenvolveu a cobertura dos fatos ocorridos, trazendo dados que puseram em xeque a refutação da comparação da baiana capital à carioca. Já no dia 12, o Correio prosseguiu a cobertura dos fatos aliando o acontecimento ao estado de coisas em que se encontra Salvador quanto à violência, deixando claro que se trata da omissão do Estado, que não qualifica nem arma suficientemente a sua polícia para enfrentar a bandidagem. Falou sobre a falta de aparelhamento, fazendo uma comparação interessante sobre a superioridade tanto numérica quanto de armamentos dos bandidos em relação à polícia baiana.
INFOTEINMENT – O Caso Mussurunga forneceu bons elementos para o chamado jornalismo Infoteinment. Um bom motivo para o cine-deboche. O apresentador-eterno-candidato Raimundo Varella deu amplo destaque para a tragédia, com ênfase na questão dos assassinatos e das circunstâncias da morte. Bocão, logo em seguida, teve quase um orgasmo vocal, tomando quase todo o seu programa com as críticas à falta de segurança no local e ao domínio do tráfico, intercalados com a propaganda do Supermemo e a distribuição de prêmios em dinheiro (“vamo (sic) faturar, o fumo vai entrar…”). Impressionante que o repórter Mão Branca não tenha sido o escolhido para cobrir o caso. Espera-se que, quando capturarem o chefão Jerry Adriani, ele vá ajeitar a camisa do meliante.
Entre gritos, propagandas e choros de alegria e desespero, Bocão seguiu até o fim do programa, exibindo, em plena hora do almoço, closes nos cadáveres. Bom serviço inicial – é necessário escancarar que, na cidade, ocorrem tais coisas –, desserviço ao misturar o assunto sério, que poderia ser mais bem aprofundado (com muito tempo disponível, já que não havia conteúdo algum no programa), com brincadeiras e assistencialismo barato. Uma informação desprovida de interesse na formação de opinião qualificada.
TV BAHIA – A boa surpresa também foi a TV Bahia noticiar os assassinatos de Mussurunga. Uma inovação da liberdade de imprensa, talvez advento da primeira campanha eleitoral após o repentino desaparecimento de ACM. Ou simples visão de mercado: não se pode ficar de fora do grande filão de audiência. Ao menos a cobertura não se resumiu a mostrar corpos. Cabe, porém, o questionamento que surge: o que é mais eficaz, no sentido de provocar uma reação da população contra a falta de segurança na cidade?
Varella e suas réplicas, seja da TV Itapoan ou os casemiros da vida, trazem a notícia crua, o que, a priori, causaria maior impacto. Porém, por suavizarem a notícia com suas caras, bocas e propagandas de emagrecedores (como se na Bahia o povo faminto precisasse de emagrecedor) e chás, torna a notícia que realmente importa – o crescimento da violência em Salvador – uma mera coadjuvante do programa que tem o concurso da Garota do Créu ou similares. Por outro lado, a TV Bahia, com seu gesso habitual na notícia não destaca os fatos relevantes, não se utiliza do status conferido pela liderança de audiência para provocar, incitar, forçar a mudança de postura dos governantes quanto ao assunto que deveria ser questão central de qualquer governo que coloque a vida do cidadão como prioridade.
CARA DA BAHIA – Ficou claro que o jornalismo baiano ainda carece de mais espaço para tratar dos fatos da terra. Precisamos reaprender a cobrir os acontecimentos da Bahia. E cobrir não se resume a dizer que aconteceu, mas mostrar por que acontece. Isto não faz a TV Itapoan, com seus dois Varellas, nem a TV Bahia – apesar de não ter um Varella para atrapalhar –, por absoluta falta de tempo. Interessante que, apesar do pouco tempo, os telejornais baianos sempre arrumam tempo para mostrar os fatos dos estadões brasileiros. Precisa-se parar de dar destaque ao Rio de Janeiro-SP – a grande mídia já o faz – e enfatizar mais o cenário local. Desenvolver a cultura do tratamento da notícia com feições baianas, e não simplesmente traduzir os pensamentos da Folha de São Paulo ou Rede Globo, como ainda faz a TV Bahia.
FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – FACOM
CURSO SUPERIOR DE JORNALISMO
ESTUDO ORIENTADO EM JORNALISMO – PROF. MALU FONTES
JAIRO SANTANA
MUSSURUNGA E O CRESCIMENTO DA VIOLÊNCIA EM SALVADOR
A COBERTURA DA IMPRENSA BAIANA
NOVIDADE – A violência finalmente parece ter chegado ao conhecimento da imprensa, especialmente a local. Os casos de violência foram agendados a partir da repercussão do massacre de Mussurunga, chacina ocorrida na madrugada do dia 08.06, onde foram mortos sete trabalhadores. “Celebrada” como a maior chacina da história da Bahia, o noticiamento do fato sinaliza uma mudança na cobertura policial feita pelo jornalismo baiano. Baiano não está acostumado a ver assassinatos no atacado serem noticiados no BATV ou até mesmo no jornal A Tarde – e está aí o seu ineditismo.
Salvador “descobriu” que vive numa verdadeira guerra urbana através dos nossos noticiários televisivos e dos principais jornais do estado, o inexpressivo Tribuna da Bahia, o “inovador” Correio da Bahia e o “gigante” A Tarde. Diversas chacinas ocorrem com periodicidade inimaginável em Salvador e região metropolitana, sem nunca serem noticiadas. Neste caso, porém, houve uma ampla e diferenciada cobertura nos dois principais segmentos, o impresso e o televisionado, porém com um aspecto em comum: o não aprofundamento na questão da verdadeira causa da violência – entenda-se, a falta da presença efetiva do Estado nestes bolsões de miséria.
MAIOR DA SEMANA – Em primeira instância, devemos considerar o equívoco da imprensa ao qualificar o assassínio dos 7 de Mussurunga como “a maior chacina da história da Bahia”. Convenhamos: não temos como saber. Caberia o uso, por fidelidade aos fatos, da expressão “a maior chacina de que se tem notícia”, e não “a maior”. Talvez a imprensa tenha utilizado tal advérbio solto na frase para justificar o destaque conferido a um fato corriqueiro (banalizado) – especialmente nos bairros da periferia da cidade, muitos dominados por reis do tráfico. Os traficantes de Mussurunga não foram empossados na semana anterior ao massacre, vertendo o sangue dos proletários dias depois. Esta questão da constituição de um Rio de Janeiro berimbaleiro já era de pleno conhecimento, especialmente dos moradores locais, que não têm a quem recorrer. Moradores de Periperi, por exemplo, convivem com assassinatos e assaltos quase diários. Outras mortes não estamparam A Tarde/Tribuna/Correio.
CORREIO – Os jornais se ativeram na questão da violência como algo pontual e específico dos locais dos acontecimentos, transparecendo certo preconceito dos jornalistas em relação aos assassinados-chacinados. A exceção do impresso – no que tange à questão do preconceito e à busca do aprofundamento – ficou por conta do tratamento da notícia conferido pelo jornal soteropolitano Correio da Bahia, que trouxe uma boa cobertura, com um pé no jornalismo literário e outro no melodrama. Antes de chegar ao fato, trouxe uma boa definição da palavra chacina. Esta palavra, em si, já guarda muito preconceito e só a sua citação para tratar do assassinato brutal de pessoas já seria uma afronta ao bom senso.
Com um bom começo, o texto do jornalista Alan Rodrigues (Correio da Bahia. Aqui Salvador, 09.06.2008), prosseguiu muito bem elaborado, trazendo a memória das vítimas como seres humanizados, trabalhadores – e não um simples número da estatística oficial. Não fugiu do maniqueísmo, porém, não o assumiu por inteiro. A definição dos assassinados como indivíduos incapazes de ter alguma relação com os bandidos serviu apenas para sustentar a tese da omissão do Estado perante as mazelas e demandas da comunidade local. Dizer que alguns deles poderiam ter envolvimento com o tráfico somente provocaria na população o sentimento de expurgo de toda a bandidagem, o que o jornalista pareceu querer evitar. As vítimas eram, essencialmente, pais de família, trabalhadores que se divertiam após uma longa e pesada jornada de trabalho. Morreram porque o Estado, por omissão inexplicável, deixou-os a mercê dos bandidos.
Boa – apesar de sensacionalista – foi a escolha do título da notícia: “Sete pessoas morrem em chacina de Mussurunga”. Normalmente, os jornais impressos excluem a palavra “pessoas”, quando se referem às “pessoas” pobres. Como quem diz nas entrelinhas que os pobres não são pessoas. O Correio foi o impresso que melhor desenvolveu a cobertura dos fatos ocorridos, trazendo dados que puseram em xeque a refutação da comparação da baiana capital à carioca. Já no dia 12, o Correio prosseguiu a cobertura dos fatos aliando o acontecimento ao estado de coisas em que se encontra Salvador quanto à violência, deixando claro que se trata da omissão do Estado, que não qualifica nem arma suficientemente a sua polícia para enfrentar a bandidagem. Falou sobre a falta de aparelhamento, fazendo uma comparação interessante sobre a superioridade tanto numérica quanto de armamentos dos bandidos em relação à polícia baiana.
INFOTEINMENT – O Caso Mussurunga forneceu bons elementos para o chamado jornalismo Infoteinment. Um bom motivo para o cine-deboche. O apresentador-eterno-candidato Raimundo Varella deu amplo destaque para a tragédia, com ênfase na questão dos assassinatos e das circunstâncias da morte. Bocão, logo em seguida, teve quase um orgasmo vocal, tomando quase todo o seu programa com as críticas à falta de segurança no local e ao domínio do tráfico, intercalados com a propaganda do Supermemo e a distribuição de prêmios em dinheiro (“vamo (sic) faturar, o fumo vai entrar…”). Impressionante que o repórter Mão Branca não tenha sido o escolhido para cobrir o caso. Espera-se que, quando capturarem o chefão Jerry Adriani, ele vá ajeitar a camisa do meliante.
Entre gritos, propagandas e choros de alegria e desespero, Bocão seguiu até o fim do programa, exibindo, em plena hora do almoço, closes nos cadáveres. Bom serviço inicial – é necessário escancarar que, na cidade, ocorrem tais coisas –, desserviço ao misturar o assunto sério, que poderia ser mais bem aprofundado (com muito tempo disponível, já que não havia conteúdo algum no programa), com brincadeiras e assistencialismo barato. Uma informação desprovida de interesse na formação de opinião qualificada.
TV BAHIA – A boa surpresa também foi a TV Bahia noticiar os assassinatos de Mussurunga. Uma inovação da liberdade de imprensa, talvez advento da primeira campanha eleitoral após o repentino desaparecimento de ACM. Ou simples visão de mercado: não se pode ficar de fora do grande filão de audiência. Ao menos a cobertura não se resumiu a mostrar corpos. Cabe, porém, o questionamento que surge: o que é mais eficaz, no sentido de provocar uma reação da população contra a falta de segurança na cidade?
Varella e suas réplicas, seja da TV Itapoan ou os casemiros da vida, trazem a notícia crua, o que, a priori, causaria maior impacto. Porém, por suavizarem a notícia com suas caras, bocas e propagandas de emagrecedores (como se na Bahia o povo faminto precisasse de emagrecedor) e chás, torna a notícia que realmente importa – o crescimento da violência em Salvador – uma mera coadjuvante do programa que tem o concurso da Garota do Créu ou similares. Por outro lado, a TV Bahia, com seu gesso habitual na notícia não destaca os fatos relevantes, não se utiliza do status conferido pela liderança de audiência para provocar, incitar, forçar a mudança de postura dos governantes quanto ao assunto que deveria ser questão central de qualquer governo que coloque a vida do cidadão como prioridade.
CARA DA BAHIA – Ficou claro que o jornalismo baiano ainda carece de mais espaço para tratar dos fatos da terra. Precisamos reaprender a cobrir os acontecimentos da Bahia. E cobrir não se resume a dizer que aconteceu, mas mostrar por que acontece. Isto não faz a TV Itapoan, com seus dois Varellas, nem a TV Bahia – apesar de não ter um Varella para atrapalhar –, por absoluta falta de tempo. Interessante que, apesar do pouco tempo, os telejornais baianos sempre arrumam tempo para mostrar os fatos dos estadões brasileiros. Precisa-se parar de dar destaque ao Rio de Janeiro-SP – a grande mídia já o faz – e enfatizar mais o cenário local. Desenvolver a cultura do tratamento da notícia com feições baianas, e não simplesmente traduzir os pensamentos da Folha de São Paulo ou Rede Globo, como ainda faz a TV Bahia.
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