domingo, 6 de dezembro de 2009

Texto 6: Artigo sobre o "protagonismo" do negro na TV

Segue abaixo um texto especial que fiz sobre o "protagonismo" do negro na TV para a disciplina Comunicação e Ética. Leiam.
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O troco do tapa
Por Jairo Santana

Em Viver a Vida, Novela das Oito da Globo, Helena (Taís Araújo), ajoelhada, chorosa, resignada está diante de Teresa (Lília Cabral), ex-mulher do atual marido da primeira, em pé, olhos firmes inquisidores, boca cerrada, odiosa. Luciana, a mimada filha de Teresa, havia sofrido um terrível acidente que a deixara tetraplégica. Helena se sentia culpada (?) pelo acidente e foi a Teresa para implorar seu perdão, já que ela havia lhe confiado a guarda de sua filha mais amada. A bofetada de Teresa na face de Helena formou um ângulo de mais ou menos 90º em relação ao lindo rosto de Taís. Violência.

Era a “devolução” do tapa que Helena havia “emprestado” para Luciana numa tola discussão que serviu apenas para justificar que madrasta e enteada viajassem separadas: Helena, num carro de luxo, Luciana, num ônibus lotado com outras modelos. O carro da modelo principiante (Luciana) capotou e… leia acima.

*RACISMO EM CENA* – Já tem um tempo que não vejo novelas durante a semana. Não estou cá a me servir da esquiva da pretensa intelectualidade para julgar incompatível com o lazer de um “discente-decente” a apreciação de uma boa obra folhetinesca da Globo – esta emissora, raiz de todo o mal, a Power Ranger má, detentora-mor dos poderes jaspiônicos de transformação do mundo real em miniatura de Castelo de Grayskull. Não é isso: é pura falta de tempo. Aos sábados, gosto de ver Viver a Vida. Assisto até à última gota de lágrima do depoimento de pessoas “reais” que encerra a trama. Uma distração.

Somente agora que já cansei o leitor é que toco no elemento adjacente da polêmica cena: a forçosa interpretação de iminente conteúdo racista. Difícil crer nesta tese, mas o fato de a primeira personagem negra a ter o prazer de integrar o rol das “Helenas de Manoel Carlos”, na novela de maior audiência e repercussão do Brasil, ter sido estapeada por uma “branca” causou alvoroço. Pode-se explicar tal catarse pela vigilância de alguns setores sociais sobre o conteúdo da novela desde que foi divulgado que a “Helena” seria jovem, negra e bem-sucedida.

O fato de se poder reclamar do conteúdo da cena já é algo louvável. A cena, no entanto, não teve absolutamente nenhum cunho racista, pois estava inserida no contexto de abnegação da personagem. O tapa, no da revolta da mãe que precisava culpar alguém pela desgraça da filha. A protagonista continua sendo a “boa”, capaz de atitudes nobres e de reconhecer seus erros – mesmo quando inexistentes. Assim se constrói a preferência do público pela protagonista – e se forma as características da vilã, especialmente pela rivalidade à figura “boa” da história. É o que filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche destaca, em Genealogia da Moral, como a construção dos conceitos de “bom” e “mau”, a partir da ascensão da moral cristã como predominante. “Se sou ‘bom’, logo o outro é ‘mau’”, diria o escravo, em relação ao seu senhor.

A fórmula se manterá a mesma: ao final, como sempre ou surpreendentemente, seja branca, preta, azul, verde ou cor de abacaxi, a protagonista tem reservado para si um final feliz junto ao “mocinho” (José Mayer) ou outro galã que encontrar no meio do percurso. É a normalização da situação do negro. Sim: uma protagonista negra é uma protagonista como outra qualquer. Coisas de Manoel Carlos.

Ao levar o tapa, Taís Araújo, excelente atriz e negra – e não uma “atriz negra” sentiu a dor do parto do protagonismo do negro em horário nobre. Coisa difícil é fazer uma “protagonista negra”: qualquer deslize pode passar a idéia de preconceito racial. Maneco estabeleceu assim, por segurança, a Helena de sempre com cara mais abrasileirada. Pouco se muda nos trejeitos, na segurança da personagem que é sempre a mesma, mas já foi interpretada por Maitê Proença, em Felicidade (1991), Vera Fischer, em Laços de Família (2000), Helena Ranaldi, em Presença de Anita (2001), Christiane Torloni, em Mulheres Apaixonadas (2003) e três vezes por Regina Duarte (em História de Amor (1995), em Por Amor (1997) e em Páginas da Vida (2007)). A cena em destaque poderia ser feita por qualquer uma destas atrizes sem muito alarde. A questão racial não entra na cena, não cabe. Não coube.

Taís já tem larga experiência como protagonista. Em Xica da Silva, de 1996, sucesso em audiência na extinta Rede Manchete, foi a primeira protagonista negra de uma telenovela brasileira, protagonizou outra novela de grande sucesso, na Rede Globo, em 2004, Da Cor do Pecado, sendo a primeira protagonista negra da Globo. A partir daí, tem ocupado papéis de destaque nas tramas de que participa.

*PROTAGONISMO NEGRO* – É interessante esta nova fase em que a televisão “descobre” o negro para torná-lo protagonista. Papéis secundários continuam sendo preenchidos por negros, o que se percebe claramente no mero exame da presença em cena de negros nas novelas globais, desde os figurantes ou atores com direito a cinco ou seis palavras – considerando os monossílabos e artigos definidos. Mas se percebe que há uma presença muito maior do que antigamente. Na novela das seis, Cama de Gato, Camila Pitanga é a protagonista e, em Malhação, alguns personagens são negros. Em Caras e Bocas, a novela das sete, vê-se ao menos dois negros com histórias que têm algum destaque na trama: Rafael Zulu, vivendo o personagem Caco, inserido justamente para discutir racismo, e a Sheron Menezes, vivendo a nova-rica Milena. Os dois formam casais multirraciais.

Mas o mais impactante é o caso do seriado Ó Paí Ó, que tem mais de 90% do elenco de negros. O baiano Lázaro Ramos, o Roque, é o protagonista e a maior parte do elenco é do Bando de Teatro do Olodum. O dialeto baiano ousa ser falado em rede nacional e o Pelourinho que os turistas não vêem é dado a conhecer. As mazelas e os conflitos religiosos que se proliferam largamente em nossa cidade são colocados de forma cômica, mas a crítica à “sociedade baiana”, altamente racista, é engajada e presença garantida em todos os episódios. Uma oportunidade para que grandes talentos sejam postos em evidência.

O que dizer deste crescimento (ao menos) quantitativo da presença e protagonismo de negros na TV? No mínimo, devemos lembrar que ainda constitui um tabu esta situação. Como todo tabu, sua tentativa de quebra gera repercussão. A televisão, veículo movido a dinheiro, necessita que esta atenção gerada se converta em audiência. Somente o fato de a Helena ser negra já garantiu holofotes à trama. Taís Araújo precisa, então, de uma atuação digna de “Helena” para não ser considerada apta apenas pelo fato de ser negra. Mais o caso de Ó Paí Ó é emblemático: é líder absoluto de audiência, elevando os índices da Globo de 15 para 24 pontos de média em São Paulo. Em Salvador, o seriado crava 46 pontos de média, audiência somente igualada pela Novela das Oito. Imbatível. A questão, examinada pelos olhos da lógica, é claramente comercial. Não se vislumbra um interesse na inclusão social ou repúdio ao racismo, mas o caminho para a superação deste entrave à igualdade é justamente este: o da naturalização das funções dos negros na sociedade. Nada mais normal que o negro ser protagonista.

Texto 5: Resenha de Aula

Este texto para mim é especial: um dos que mais gostei de fazer e que achei melhor. Eu, que geralmente sou bastante crítico em relação ao que faço, gosto abertamente deste texto, publicado inicialmente no blog da Disciplina Comunicação e Tecnologia no primeiro semestre de 2009. Seria apenas uma resenha de aula, mas... leiam.
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RESENHA DA AULA
(09/04/2009)

PRELIMINARES

Em contraponto às incertezas da vida do baiano moderno, temos a certeza de que o extraordinário vive seu cotidiano em terras de Caymmi. Certo é o apresentador e radialista Raimundo Varella, que diuturnamente parafraseia em seus programas o falecido governador Octávio Mangabeira: “Pense no absurdo... na Bahia tem precedente”.

O calendário somente santificou com a folga oficial a sexta-feira, mas o oficioso é regra no Estado. Assim, na quinta-feira (também santa, porém, dia normal de trabalho e estudo), o professor André Lemos e meia-dúzia de alunos “faconianos” compareceram à aula sob um silêncio, por assim dizer, divino. Houve uma conversão em massa: os faltosos aderiram a Cristo, à Igreja ou ao simples descanso. Na FACOM, certos rostos puderam ser conhecidos e reconhecidos. Teve gente que conheceu o porteiro naquela manhã.

Algo estranho estava para acontecer: na FACOM vazia, as conversas dos hereges – os que não crucificaram a véspera – batiam nas paredes, ecoando sem encontrar ouvidos alheios. Até assombração apareceu: era o professor Benjamin Picado, ameaçando falar de Semiótica.

O semblante risonho do professor André Lemos não escondia a sua decepção com o sistema de coisas que rege o mundo moderno. Teimoso, resolveu dar a aula aos corajosos ímpios. Não adianta: o povo enforca até inocente (a quinta-feira, a santa). Aqui, na esquina do fim do mundo, começa-se a preparar o acarajé de domingo desde a quinta-feira pela manhã. É mais gostoso.

A AULA
ATO I

GRUPO 11 FINALIZA SEU SEMINÁRIO

Rapidamente o grupo 11 finalizou o seu seminário. Apontou-se na apresentação da equipe a divergência de opiniões entre o Mass Communication Research, a Teoria Funcionalista – que afirmava que a mídia é neutra – e os adeptos da Escola de Frankfurt – que assegurava que a mídia não é neutra: está necessariamente engajada.

André Lemos asseverou que não temos meios de comunicação de massa. Existem meios de informação de massa.

A AULA
ATO II

Em seguida, o grupo 12 começa a apresentação do seminário sobre o texto de Niklas Luhmann, “A improbabilidade da comunicação”. Dividem o seminário em três partes, conforme sugestão outrora lançada em aula pelo professor André Lemos: idéia central, argumentos do autor e levantamento de algumas questões a partir do texto.

IDÉIA CENTRAL

Tomando por base a Teoria Política de Thomas Hobbes – que não acreditava na possibilidade de apreender de modo espontâneo a natureza, e questionava todas as condições que possibilitavam tal conhecimento – Niklas Luhmann, em “A improbabilidade da comunicação”, diz que a comunicação é improvável, isto é, não se produza efetivamente.

Estamos acostumados a tratar a comunicação a partir dos “fenômenos comunicativos” e, portanto, certos de que a comunicação aconteça: tratamo-na como inevitável. Eis o paradoxo: tem-se, por senso comum, a “certeza” da prática comunicativa e Luhmann suspeita da existência da comunicação.

Luhmann passa a problematizar o que é imperceptível: analisa as dificuldades que a comunicação tem de superar para acontecer, de fato. Desta forma, o teórico não sustenta a impossibilidade da comunicação, e sim sua improbabilidade. Indica que a comunicação careça de mecanismos capazes de tornar possível o improvável, superando três certas barreiras.

ARGUMENTOS DO AUTOR

Para sustentar a sua tese, Luhmann lista três empecilhos à comunicação que acabariam por torná-la improvável: A primeira sugere ser "improvável que alguém compreenda o que o outro quer dizer, tendo em conta o isolamento e a individualização da sua consciência". O sentido é dado pela conjuntura, e esta última, por sua vez, é percebida pela faculdade de memória de cada um. Há dificuldade em atingir o outro, pois o outro é sempre uma incógnita.

Neste ponto, André Lemos acrescentou em aula que concorda com Luhmann, pois sempre será preciso, no ato da comunicação, “romper com o isolamento” próprio de cada humano ser. Exemplificou este primeiro obstáculo: durante as aulas, espera-se que os assuntos transmitidos sejam compreendidos pelos graduandos.

A segunda diz ser "improvável que uma comunicação chegue a mais pessoas do que as que se encontram presentes numa situação dada". Trata-se aqui do problema da atenção, normalmente garantida pela interação entre os indivíduos numa situação determinada. Não há garantias de que a comunicação venha a acontecer em situações distintas, se exposta a diferentes interesses. Perder-se-á a atenção. Há dificuldade em atingir o outro se o interesse do outro for distinto.

A terceira refere-se à improbabilidade de se obter o resultado desejado, isto é, a aceitação da informação como premissa de comportamento por parte do receptor desejado. "Nem sequer o fato de que uma comunicação tenha sido entendida garante que tenha sido também aceita", diz Luhmann. Dessa forma, Luhmann condiciona a comunicação ao efeito esperado. A “prova” de que a comunicação aconteceu, seria a adoção, pelo receptor, do conteúdo da mensagem emitida. Neste ponto reside a grande discórdia entre o professor Lemos e a teoria de Luhmann: para o André, o fato de o receptor não aprovar e não seguir o que o emissor transmitiu através da mensagem, não significa que não houve comunicação.

Luhmann prossegue afirmando que as três formas de improbabilidade se reforçam mutuamente. Quando um dos pontos é resolvido – a exemplo da compreensão da mensagem –, salienta-se outro – aumenta-se a possibilidade de rejeição.

O GRUPO LEVANTA ALGUMAS QUESTÕES

Procurando fortalecer a compreensão da sala sobre o assunto abordado, o grupo 12 citou alguns exemplos:

1. Apesar de não se ter a possibilidade de um meio que resolva estas dificuldades, facilitando a compreensão da mensagem, os grandes meios modernos de comunicação de massa atuam como se tais dificuldades fossem superadas. A partir daí, atribui-se como uma das causas da perda de audiência que a Rede Globo está experimentando nos últimos anos (conforme aferições feitas pelo IBOPE), ao caráter nacional de sua programação. A emissora buscou, no decorrer dos anos, implantar uma grade nacionalizada, com um “sotaque” carioca. Num país de sotaques, trejeitos e verdades diferenciados, as emissoras locais têm investido na programação regionalizada, obtendo êxito ao falar diretamente ao cidadão local. Programas como o “Se liga Bocão!”, da TV Itapoan, ou “Na mira”, da TV Aratu, têm obtido índices de audiência muitas vezes superiores à Globo, quando a emissora exibe sua programação nacional. O mesmo acontece em diversos estados brasileiros. A dificuldade de chegar aos indivíduos, com seus interesses locais, com uma programação distante e com suposta uniformização do conteúdo – a despeito dos reais desejos da população local – atesta a tese de Luhmann: a atenção se dispersa.
André Lemos, bom carioca, atribuiu, como chiste, a adoção do sotaque carioca pela Globo ao “fato” de o carioca “não ter sotaque”. Pelo amor da garantia da nota... sem comentários.

2. Analisemos um dos criativos anúncios da cerveja Skol. O “enredo” trata da busca pelo suposto “código redondo”.
Em um primeiro momento, temos o problema da compreensão da mensagem: para falar da cerveja, a propaganda faz uma narrativa que vai do momento em que os extraterrestres teriam chegado à Terra, portando o código (sendo recebidos por um velho caridoso que os ajuda) até chegar ao momento em que o tal “código redondo” é revelado numa fábrica da Skol.

Daí se infere que o telespectador teria a atenção voltada para a propaganda, por ter uma “narrativa envolvente”. Não se pode provar que o telespectador realmente prestou atenção naquilo que viu. Simplesmente pode ter ignorado ou ido ao banheiro no momento da veiculação daquela propaganda. Lembremos: estes anúncios são veiculados nos intervalos dos programas televisivos.

Infere-se, também, que o fato de o telespectador ter visto a propaganda, compreendido e prestado atenção, não significa que ele aceitará a informação. Ou seja, não significa que ele vá comprar a cerveja por isso.

A AULA
ATO III

Finda a apresentação do grupo 12, tendo pouca discussão devido à falta de quórum, André Lemos finalizou a aula.

Eis o lado bom da ausência dos muitos: a chamada foi breve.

Texto 4: Reportagem no Jornal da FACOM

Publico agora a reportagem que fiz, em parceria com Joaci Conceição, para a edição do segundo semestre de 2008 do JORNAL DA FACOM. Leiam.
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E o Ara, já era?

Crise no Instituto Ara Ketu pode deixar sem utilidade quadra que custou 950 mil reais e mais de 300 crianças ociosas.

O Instituto Educativo e Cultural Ara Ketu (IAK) vive uma grave crise financeira desde 2005, devido às dívidas trabalhistas e à falta de ajuda estatal. Sua fundadora e presidente, Vera Lacerda da Silva, que é também dona do bloco de carnaval Ara Ketu, diz que a ausência de convênios governamentais é conseqüência de débitos com o Estado.

O IAK foi fundado em 1997 e não tem qualquer ligação com o famoso bloco, conforme enfatiza Vera. O instituto nasceu como uma escolinha de percussão que formava músicos para o bloco, passando a oferecer, em parceria com outras instituições, diversas oficinas profissionalizantes, após a construção do barracão na Rua Pedro Reis Gordilho, 38A, no bairro de Periperi, em Salvador. O instituto cedia o espaço para os cursos, que duravam em média 8 meses. O número de alunos matriculados ultrapassava 1.200.

Entre 2000 e 2005, a Bahiatursa (Empresa de Turismo da Bahia), a Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Bahia (SEC) e a Secretaria Municipal de Educação de Salvador (SMEC) foram os principais parceiros do instituto. Deixaram de ser. Vera atribui o corte das verbas oficiais às dívidas referentes a impostos. “Seria necessário apresentar certidões emitidas pelo Governo e, como eu estou em débito, não foi possível (a renovação)”, acredita. Não faz qualquer ligação entre a perda da bolada estatal à troca de comando no governo estadual.

O instituto, que já teve 25 funcionários, hoje só apresenta 6. Os instrutores recebem ajuda de custo das instituições que ainda mantém os projetos. E o número de jovens que freqüenta os cursos não passa de 260, dos 560 matriculados, conforme esclarece Antônio Carlos, o Tonca, coordenador do IAK.

Os cursos também não são mais os mesmos: funcionam apenas os de corte e confecção, de boxe e capoeira. Na área onde aconteciam as oficinas foi construída uma quadra para aulas de basquetebol, voleibol, futsal e handebol. Mais de 950 mil reais foram gastos para construção da quadra e da pista de atletismo entre 2004 e 2005. As aulas na quadra eram financiadas pela Fundação de Apoio ao Menor de Feira de Santana (FAMFS), através do Projeto Segundo Tempo, do Ministério dos Esportes.

A FAMFS decidiu não renovar o contrato com o instituto. Vera Lacerda diz não saber o motivo da recusa. Esta atitude da FAMFS vai prejudicar diretamente cerca de 300 crianças que estavam matriculadas no projeto, caindo de 8 para 3 o número de cursos no Ara Ketu.
Alguns professores, como é o caso de Ronaldo Cavalcante, gostariam de continuar com o trabalho voluntariamente, o que não será possível – o IAK acumula uma dívida trabalhista e procura precaver-se de contestações futuras. “As dívidas são decorrentes de ex-funcionários de projetos que acabavam e que diziam que continuariam conosco e depois me acionaram na justiça. Também mães voluntárias que vinham ajudar na merenda me acionaram na justiça do trabalho”, conta a presidente do IAK.

A dívida da ONG passava de R$ 144 mil em 2007. “Crise financeira tem, mas não está mais neste valor, porque está na justiça e a gente está pagando. Teve gente aí que eu até já liquidei, já não deve mais, mas, assim com uma dificuldade muito grande, porque a gente que tá tendo que arcar com tudo isso”, apontou Vera.

Além da FAMFS, o instituto abriga projetos do Centro de Educação e Cultura Popular (CECUP), com oficinas de boxe e capoeira, que atendem cerca de 220 crianças e jovens de 07 a 18 anos. A CECUP paga aos instrutores e ainda oferece a merenda para os alunos. Para Ana Cátia Santos, mãe de aprendiz de capoeira, faz muita diferença ter um professor proveniente da comunidade, pois o grau de comprometimento é maior, considerando que, a maioria, é autodidata, como é o caso dos instrutores do IAK, captados dentre os moradores locais.

A área que deveria servir de praça de atletismo, abandonada, está sendo utilizada por usuários de drogas, o que torna o espaço perigoso. Vera Lacerda diz ter feito o projeto e mesmo assim não conseguiu recursos, o que transforma a praça de atletismo em praça das drogas. Para Ana Cátia, sua filha está segura dentro do Ara Ketu. Porém, os professores, principalmente os da comunidade, alertam os pais pra acompanhar seus filhos. “Pra não se misturar com usuários ou traficantes de drogas, que têm aumentado na área”, segundo o professor de capoeira Samuel Freitas Santana.

“Eu preferia muito mais trabalhar com o privado do que com público, mas as empresas têm medo da fiscalização”, diz Vera Lacerda, com a tranqüilidade de quem não vê problemas no fato de organizações não-governamentais receberem recursos públicos. Para ela, as empresas privadas precisam ser mais sensíveis às questões sociais. A ineficiência do Estado brasileiro a falta de investimentos sociais do setor privado contribuem para o aumento do número de Ongs e a profissionalização do setor.


Texto 3: Livro Salvador de Perfis

Abaixo, publico a minha reportagem disponível no livro "Salvador de Perfis", da turma da disciplina Comunicação Jornalística. O livro, lançado em 2008, contou com reportagens que se atentavam ao gênero de "Jornalismo Literário".
A reportagem que fiz, em parceria com Joaci Conceição, tratou das dificuldades das figuras humanas das comunidades que estão dentro e no entorno do Parque Metropolitano de Pituaçu (e todo o processo de desapropriação desta área de preservação ambiental). Leiam.
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Peixes obesos na lagoa e o passaporte para o paraíso


Baba ecológico

Manhã de domingo, 6h30, 20 de abril de 2008, uma das quadras poliesportivas do Parque Metropolitano de Pituaçu estava tomada de duas dúzias de homens fardados com shorts de tactel preto, chuteiras de quaisquer cores, camisas de blocos carnavalescos e coletes amarelos ou vermelhos cor de sangue, que espancavam uma bola em direção às traves. Gritos, palavrões, mais gritos, risos. Na arquibancada, mais que cinco pessoas faziam a festa. Foi um jogo e tanto: a equipe vermelha ganhara de 5x4 da amarela. Depois, fora da quadra, mas sem precisar sair do espaço cercado pelo alambrado que cerca o parque, Nego conseguia se reabastecer tranqüilamente de Nova Schin e algum tira-gosto com farofa. Pela cara, parecia bom – ou já estava acostumado.
Feliz pelo triunfo da equipe vermelha, Aldenilson Viana Rangel, o Nego, torcedor do Vitória naqueles dias de Bavi (clássico do futebol baiano disputado entre as equipes do Bahia e do Vitória), não esconde que poderia ter feito este jogo a 50m de casa, numa quadra da sua comunidade, se esta não estivesse degradada e invadida por barracos. 1,84m, brinco áureo-argênteo em forma de lua cravado na orelha esquerda, negro de cor da pele, dos olhos e de convicção, não vê preconceito em seu apelido-nome que tem desde pequeno. Fora dos muitos compromissos políticos, tem dificuldade de atender quando chamado de seu verdadeiro nome. Hoje é Nego e ponto.
Casado desde 1989 com Zorádia Ferreira Rangel, Nego respira política. “Tudo é política, até no futebol”, diz. Assim começa uma frase que talvez não tenha vírgula ou ponto. Um discurso inteiro a partir de uma pergunta. O ponto final da frase parecia reticência. Nesta frase coube toda a história da sua comunidade. Falou com paixão dela, como o seu maior admirador. Contou que ajuntou com outro punhado de amigos seus e formou uma comissão de moradores, que depois passou a ser o Conselho de Moradores do Alto do São João. O Conselho teve vida curta (cerca de dois anos), mas trouxe a idéia da mobilização da comunidade para o fortalecimento da luta pela permanência. Percebendo o pouco impacto que o Conselho teria sozinho, decidiu-se formar uma nova associação de moradores, aliada à da Boca do Rio. Nego inclui sempre nas discussões as necessidades da sua comunidade.
Uma vida inteira dedicada a questões sociais, Coordenador de Eventos do Sindicato dos Agentes Comunitários de Saúde da Bahia (SINDACS/BA), vice-presidente da Associação Moradores da Boca do Rio e Adjacências, mora (com sua esposa e seus três filhos) numa casa simples, encolhida e escondida na única rua da Comunidade Alto do São João, protegida por uma cadela vira-lata com cara de Pastor Alemão de prenome Xena, que sequer latia para assustar.
Tem pouco tempo para si e para a família, mesmo assim, mantém boa forma – 84 kg, mas sua altura lhe dá certa aparência de bom porte físico –, mostra-se afável com seus consangüíneos e ainda consegue orgulhá-los. Sua filha mais velha, Ariadne, 17, negra, cabelos trançados marrons e avermelhados, olhos castanhos escuros brilhantes, sobrancelhas finas e bem delineadas, não escondia o alvo e orgulhoso sorriso ao falar do pai. “Sim, é meu pai”, disse, sorrindo. Ao ser questionada sobre o paradeiro de Nego, empunhando o dedo indicador à sua frente, destaca um portão ao lado de um bar. “É logo ali”.
Sua relação com o Alto começou há 34 anos e se confunde com a história da comunidade. Cresceu vendo as outras comunidades de Pituaçu se desenvolver, brigar por melhores condições e o Alto ficar para trás. Resolveu, então, que iria fazer algo pela sua comunidade, quando “se meteu com política”, como dizem alguns moradores, com certa ponta de desconfiança. Sugere que o governo estadual incentive a criação de viveiros de camarão ou outros peixes na lagoa, como modo de tornar o parque auto-sustentável e incentivar a comunidade a preservar o seu patrimônio ecológico.
Chegou na meninice de seus dez anos com seus pais, que compraram (um ano depois da criação do parque ainda eram vendidos terrenos, quando o governo indenizava moradores, devido à falta de fiscalização das autoridades) por seis mil cruzeiros uma casa no local, para fugir do aluguel. Era um barraco, como muitos na época, que obrigava o fulano visitante a curvar-se para entrar – difícil era não sofrer de cifose, posto que fosse impossível manter a coluna ereta, devido a pouca distância do chão ao teto. Nego já foi zelador, lavador de carros, ajudante de pedreiro, caixa de restaurante, porteiro e hoje é agente comunitário de saúde, depois de ter feito concurso público em 1998.
A luta dos moradores do Alto do São João é pela permanência ou pela saída mediante acordo justo. Nego cita um projeto do senador Rodolpho Tourinho que previa a construção de 32 unidades habitacionais na área onde fica a quadra de futebol da comunidade. Com isso, a comunidade seria “empurrada” para fora dos limites do parque, mas não seria expurgada do bairro. No entanto, os recursos foram realocados para Nova Brasília de Itapuã, reduto eleitoral do senador, de acordo com Nego. E o Alto do São João continua dentro da Área de Preservação Ambiental.

Um parque humano

O sol não espera sombrear para deixar conhecer o Parque Metropolitano de Pituaçu (PMP), localizado no bairro de Pituaçu, na cidade do Salvador (BA), entre as avenidas Jorge Amado, Pinto de Aguiar, Luiz Viana Filho (Paralela) e Octávio Mangabeira (orla marítima). Cercado de “invasões de colarinho branco” e “ocupações” de pessoas pobres, o parque ainda consegue ser um espaço de preservação ambiental, alternativa de lazer, opção para quem quer ser assaltado (a), estuprado (a), ou simplesmente para quem não tem dinheiro para pagar o motel – os praticantes da modalidade do “moitel”.
Segundo dados da 9ª Delegacia, responsável por toda a área de Pituaçu, no bairro foram registrados 64 roubos, 30 furtos, 01 latrocínio e 03 homicídios dolosos de janeiro a maio de 2008. Estes números não incluem as ocorrências não registradas. Diversos comerciantes locais contam que são assaltados, mas não denunciam por medo de represália dos bandidos que se escondem entre os moradores. Os estupros ainda são tabu.
O PMP foi criado e tornado uma APA (Área de Preservação Ambiental) através do Decreto Estadual nº. 23.666, assinado pelo então governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, em 4 de Setembro de 1973. Inicialmente com 660 ha., atualmente o parque possui apenas 385 ha., devido ao crescimento da cidade em direção à APA, por sua supracitada localização privilegiada. Diversas comunidades foram formadas no entorno e até mesmo dentro do parque, inclusive o bairro de Pituaçu e outros agrupamentos populacionais, tais como a Comunidade do Alto do São João, a invasão de luxo do Sítio Pombal e a comunidade do Bate-Facho – uma área de risco, pela ameaça de rompimento da barragem, sua vizinha mais próxima.
Apesar disso, o parque ainda abriga uma rica biodiversidade, grande variedade de árvores frutíferas, como mangueiras, cajueiros, goiabeiras, além de coqueiros, dendezeiros, palmeiras, pés de jamelão e de jaca. Espécies como a aroeira – um antiinflamatório natural, muito utilizado em rituais de candomblé – e helicônia (ou bananeira-do-mato) também são fartamente encontradas no parque. Exemplares da fauna da Mata Atlântica ainda podem ser encontrados no local, dentre as quais, a cobra sucuri é sempre mal-vista (quando vista). Geralmente, apesar da ação da polícia ambiental, é morta.
Através do Decreto 10.182, de 15 de dezembro de 2006 (a poucos dias de passar o bastão ao novo mandatário do estado), o ex-governador Paulo Souto definiu os novos limites do parque, oficializando assim a perda de mais de 40 % da área prevista pelo decreto de 1973. A justificativa de Souto era a necessidade de ajustá-lo ao que previa o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), que passou a área à categoria de parque urbano. Foi, na prática, o reconhecimento da incompetência do Estado quanto à preservação do espaço. No decreto assinado por Souto, as áreas ocupadas legal ou ilegalmente seriam mantidas para serem regularizadas posteriormente.
Tal legalização, até maio de 2008, não ocorreu, apesar da aprovação do PDDU, que prevê a criação do Sistema de Áreas de Valor Ambiental e Cultural (Savam). Ficariam “protegidas de ocupação urbana”, as áreas assim denominadas, como os parques do Cobre, de São Bartolomeu, do Abaeté, da Cidade e o de Pituaçu, que ainda guardam espécies da Mata Atlântica.
Este derradeiro decreto sobre o parque não é de conhecimento dos moradores locais, o que pôde ser comprovado em rápida pesquisa na área. As reações são diversas, ao conhecerem a nova poligonal definida pelo decreto. Quem percebe que sua casa está, ainda segundo o decreto, dentro do parque, revolta-se. Quem está de fora, abre largo sorriso. Fica a sensação de egoísmo: o sentido do coletivo se vê prejudicado.
O alambrado verde-escuro – apesar de derrubado na entrada principal pela ação da ferrugem aliada à ventania e chuvas – dá aparência de lugar de preservação ambiental, mas não cumpre a função de ser uma cerca: não percorre toda a extensão do parque. Em alguns lugares o enfeite separa a área de convivência da ciclovia. Poder-se-ia supor que o que fica por detrás não pertenceria ao parque. Tornou-se lugar de ninguém: o Estado não estabelece os devidos limites e as pessoas que teimam em construir nestas áreas são marginalizadas.

Cravo e os peixes obesos

Logo na entrada principal do PMP, vê-se o Espaço Mário Cravo, que abriga um museu com o mesmo nome (uma imensa estrutura cinza e vermelha que forma um arco retangular sobre a pequena lagoa) com mais de duas mil esculturas e peças de arte de Mário Cravo Neto, único artista plástico que expõe naquele espaço público. O renomado artista ainda conta com uma oficina exclusiva dentro do parque, onde são produzidas as suas obras. O espaço de Cravo é administrado pela Conder e pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC). Ou seja, são recursos públicos destinados à promoção de um único artista.
Segundo o administrador do PMP (de quem falaremos mais adiante), tal privilégio no espaço público gera insatisfações. Conta que, em 2001, durante a greve da PM, muitos moradores aproveitaram para realizar um ato político. Naquele período, promoveram um quebra-quebra nas caras obras de arte de Cravo. Esculturas flutuantes receberam companhia de outras que naturalmente ficavam fincadas na terra. Um grande prejuízo.
Sob o museu, na pequena lagoa, visitantes contribuíam para a obesidade dos peixes, dando-lhes restos alimentares, com a conivência dos seguranças do parque (além destes, o parque conta com o patrulhamento diuturno da Companhia de Polícia de Proteção Ambiental – COPPA). A pesca fora proibida naquele espaço há mais de dez anos, o que ajudou na formação da superpopulação de exemplares de traíras que brigavam por pedaços de pipoca-doce. Uma simples placa – “Não alimente os peixes” – poderia ser útil aos desavisados.
Ultrapassando o espaço monopolizado pelo artista, encontramos o Centro de Vivência e Lazer, integrado por restaurantes, pizzarias, pontos para venda de água de coco, acarajé, estacionamento, escritório, sanitários, pista de skate, duas quadras poli - esportivas e a Feira Reviva Parque, onde comerciantes locais vendem seus produtos artesanais e alimentos orgânicos. Para a construção deste espaço, foram desapropriadas dezenas de casas – mas uma minoria foi excluída, dentre eles um terreiro de Candomblé e casas de alguns jornalistas, visivelmente dentro do parque, fazendo com que o alambrado desenhasse um retângulo que separou os que poderiam permanecer ali –, houve grande desmatamento e transformação da paisagem original, com a criação de jardins, dantes dunas. Tudo para a criação de um parque ambiental. Contra-senso.
A outra lagoa artificial, com seus mais de 4 km de extensão e de 200 mil m2 de espelho d’água, surgida em 1906, a partir da construção da barragem do rio Pituaçu, para o abastecimento da cidade à época (até 2002, quando foi desativada por causa da degradação), encontra-se hoje poluída. O administrador do parque conta que as águas que abastecem a lagoa recebem o esgoto de mais de sete mil pontos desde o bairro da Valéria, onde fica a nascente. Lá pelos anos 1990 era possível tomar banho naquela lagoa e eram promovidos piqueniques aos finais de semana. Hoje a freqüência no parque “caiu consideravelmente, ficando quase restrita aos moradores das imediações do parque”, conta Antônio Isidro, pipoqueiro e ex-presidente da Associação de Moradores de Pituaçu.

Cabeça de touro

O Alto do São João fica dentro do PMP e é uma das poucas comunidades sobreviventes do decreto de 1973. Os moradores vivem em situação precária com o “básico do básico”, pois, as autoridades alegam não poder levar infra-estrutura urbana, o que acabaria descaracterizando a área de preservação ambiental. Mas há no Alto resquícios de urbanização: água encanada, luz e telefonia fixa. O Alto fica dentro do parque, desde a delimitação original e atualmente faz fronteira com a ciclovia do parque, na altura do km 14,5. Lá é onde se tem a melhor vista do reflexo da lua no espelho d’água, segundo parciais moradores.
A Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), numa de suas últimas investidas para resolver a situação de delimitação entre o parque e a comunidade e em atendimento ao disposto no decreto que criou o parque, determinou que as casas situadas a 100m do espelho d’água fossem retiradas, regulamentando as outras que se encontrassem mais distantes. Mas essa determinação só se referia a esta comunidade: algumas até já têm regulamentação, como é o caso do Sítio do Pombal, invasão de colarinho branco que também teria que ter algumas residências, limítrofes com o parque, retiradas, ou mesmo a maioria das casas de Pituaçu, onde as pessoas que já receberam título de posse teriam de sair. Mais isso é outra história...
A Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH), responsável pela administração do parque, “está de mãos atadas por não ter recebido da Conder as dimensões do parque”, diz o administrador do parque. O Alto do São João tem mais de 200 famílias e, levando-se em consideração a regra dos 100m, tem muita gente invadindo a APA, algo em torno de 50% da comunidade.
O Alto foi e é palco de muitas histórias. Há quem diga que naquele lugar foi “enterrada uma cabeça de touro”, ou mesmo que o lugar tem um ímã que atrai as pessoas, principalmente os antigos moradores indenizados. É o caso de Edésio, alcunhado Dezinho, figura muito conhecida no bairro. Ele morava “num barraco feito de materiais recicláveis, que valia menos de mil reais, mas, com a intervenção do Conselho de Moradores do Alto do São João (CMAS) foi indenizado com 5 mil reais, indo morar em Vida Nova (Lauro de Freitas)”, conta Nego. Depois de mais ou menos um ano, Dezinho gastou o dinheiro em cachaça – conforme relato de moradores –, abandonou sua casa e voltou a morar no mesmo barraco, para, de novo, receber a indenização do governo.
E isso se transformou num círculo vicioso: o Estado indenizava o cidadão pra sair da área do parque, e ele acabava sempre voltando, não só por usura, mas também por que a área continuava lá, esperando ser invadida novamente. Às vezes, não havia mais nenhuma característica da APA e o governo indenizava, mesmo sabendo da impossibilidade de renovação da área.
Logicamente que isso acaba por favorecer os aproveitadores, pessoas que não têm a menor necessidade de invadir uma área pública, um patrimônio ambiental. Logo na entrada da comunidade, podem-se perceber grandes construções e empreendimentos comerciais, que, antes de agregar valor ao local, descaracteriza-o: um estabelecimento que faz compra e venda de sucata, uma oficina mecânica com seis funcionários que tratam os carros no meio da rua, impedindo o livre trânsito até de pedestres, além dos condomínios, os maiores invasores. Em muitos postes e pontos de venda, vê-se muitos cartazes de venda de imóveis e de terrenos. O comprador muitas vezes não sabe que está comprando o terreno de uma APA.
O mais intrigante é saber que em algumas das comunidades adjacentes (Pituaçu – comunidade central –, Recanto dos Coqueiros, Jardim Imperial, Alto Beira-mar e 2 de Janeiro), os moradores têm título de posse, certa infra-estrutura (todas as ruas asfaltadas, com rede de esgoto), enfim, há cara de cidade. Pois, a uma primeira impressão, o Alto parece uma cidadezinha do interior, esperando a boa vontade dos poderes públicos para lhes darem oportunidades na vida. Nem o carro de lixo entra ali. Parece uma tentativa de estimular os moradores a poluir mais o parque. Depois de muita reivindicação, foi colocado um contêiner para servir de lixeira do local. Mas o instrumento fica na parte mais alta da rua, os moradores que justamente avançam mais para dentro da lagoa, não sobem para jogar seu lixo, deixando-o dentro da reserva.
Como em todos os bairros da periferia, o Alto vive numa explosão do tráfico de drogas e conseqüentemente da violência na região (ver dados da 9ª Delegacia). Os criminosos se aproveitam da falta do governo e de uma localização que privilegia as rotas de fuga e refúgio na mata para se fortalecer. O fato de estarem pertinho de uma das áreas mais valorizadas em Salvador (Paralela) aproxima os malandros de possíveis ricos usuários de entorpecentes que, vez ou outra, são vistos em suspeitas e rápidas visitas em seus carrões com vidro fumê. Não se sabe (ou não se fala) se são estes os fornecedores.
“Nós estamos cansados de falsas promessas, vai ser difícil alguém falar. São anos de enrolação, a cada governo, a cada eleição, são novas promessas que não são cumpridas”, desabafa dona Zuquinha quando interrogada a respeito da situação dos moradores. Ainda de acordo com dona Zuquinha houve no bairro ao longo dos anos desde 1973, mais reuniões que ações propriamente feitas. A pouquíssima infra-estrutura que tem, na maioria foi providenciada pelos moradores.

Dona Zuquinha

Uma massa de cimento (mal misturada com arenoso, areia e brita), atrelada ao chão e com visíveis desníveis que sinalizam a operação de um pedreiro amador, traz certa civilidade às ruelas e à rua principal que dá nome à comunidade. Talvez um dia, talvez nunca, ali receberá um “banho de asfalto”. O banho de luz já chegara a alguns pontos. Em outros, as felinas ligações clandestinas apontam a necessidade da presença mais efetiva dos poderes públicos. Quase toda a infra-estrutura que os moradores conseguiram foi com o esforço deles próprios. Sinais de vida no meio ambiente.
Quase todas as portas estavam abertas naquela rua, exceto das casas das pessoas mais bem-abastadas. Bancos nas varandas – e neles, moradores. Clima de interior. Alegria de pobre. Pagode. Mais pagode. Jovens na rua, mexendo a bunda. “Maco mais conha: maconha. Maco mais eiro…”, rádio nas alturas. Ótimo lugar para ter preconceito. E para lembrar que alegria de pobre dura sempre pouco. Anos pares são os melhores. Num, vem candidato a prefeito e a vereador. Noutro, vem os aspirantes a deputados, o futuro governador. Nova era: tudo vai mudar, os bem-te-vis continuarão a visitar o quintal, cantarão as cançonetas que embalarão o baile festivo de um novo tempo, onde todos terão onde morar e beijarão as melhores mulheres. Ano ímpar, desgraça. Ano que vem será par. Esperanças.
Ets passavam naquela rua, com seus cadernos espaciais, cearenses testas interrogativas, olhos totalmente abertos, cabeças balançantes e que não dançavam o incômodo pagode. Tentamos dissimular o desgosto do som e fizemo-nos terráqueos. Precisávamos, além de observar, conversar com alguém que nos falasse sobre aquele mundo esverdeado pintado de gente miúda e graúda. Um copo d’água poderia ser uma boa desculpa. Descemos uma ladeira de certo beco suspeito. Suspeitar de um beco é o cúmulo. Na verdade, a sede já nos atormentava. Dona Zuquinha, foi a primeira que nos viu. Ouvimos seu nome e descemos para lhe falar.
Maria José Barreto Morais, 67, dona Zuquinha, moradora há aproximadamente trinta anos da Comunidade do Alto do São João. Baixinha, 1,52m, 58 kg, a fala mansa, cabelos curtos, encaracolados, ainda pretos ou talvez tinturados, olhos castanhos escuros escondidos atrás dos óculos de grau, as mãos grudadas na vassoura, mas a atenção voltada aos pseudojornalistas.
Ano eleitoral. A pessoa que mudaria toda a situação em que se encontrava logo chegaria insinuando querer comprar seu voto. Muitas lutas pela permanência, muitos barracos derrubados, casas construídas e postas abaixo sem cerimônia, muito desrespeito. Mortes não noticiadas. Promessas. Era ano eleitoral e chegam dois desconhecidos. De repente, abre um sorriso: senha para a conversa amigável. Antes, dissemos que não estávamos a serviço de nenhum candidato. Com o tempo, o povo aprende que é perda de tempo. O quintal demorou a ser completamente varrido. Varrido permaneceu por dez minutos, até as folhas secas do pé-de-carambolas assumirem o seu posto. Muitas carambolas maduras beijavam o chão...
Viúva, ela conta que foi seu marido quem comprou um terreno na área para sair do aluguel. Moravam em Brotas. “Durante a construção da casa vários mutirões foram organizados”, conta dona Zuquinha, “que sempre acabavam com banhos na lagoa”, completa. Maior surpresa foi dos guardas que só viram depois quando a casa já estava pronta. Ficaram perguntando como foi que eles fizeram aquilo. “Nos finais de semana não havia vigia aqui, então aproveitamos”, lembrou, com ar nostálgico, de um tempo onde era quase um sonho morar nas imediações do parque. Ainda hoje é. Um bairro que tem um parque ambiental ao lado, com toda uma infra-estrutura de lazer e uma praia ainda limpa a poucas centenas de metros tem um quê de utopia.
No tempo em que lavar roupa suja no rio não era proibido (o parque tem uma lavanderia comunitária), dona Zuquinha, além de cuidar dos seus seis filhos, tinha de lidar com a iminência de ser despejada a qualquer momento. Mas era uma preocupação diferente (um anseio, na verdade, por uma definição das autoridades), pois sabia que só sairia dali com uma indenização, que não ficaria sem rumo na vida. Um sentimento de desconforto, uma vontade que tudo se resolvesse logo, que fosse definido logo os limites do parque, que se decidisse o que lhe aconteceria.
Sempre participava das reuniões com a Conder, com vereadores, principalmente em época de eleição, com aspirantes a presidente de uma suposta associação de moradores do bairro. “Todo ano corria a notícia que a Conder ia tirar todo mundo. Começavam a tirar uns aqui e outros lá, aí paravam e esqueciam”, disse Zuquinha, com o olhar voltado para o seu portão, como quem temesse que passasse alguém e escutasse a conversa. Baixou o tom da voz. Se já era quase indecifrável o que dizia, pela altura com que empurrava os sons para os ouvidos alheios misturados ao som de “arrocha” da casa ao lado, tornou-se impossível ouvi-la. Contou o nome dos remédios que tinha que comprar. Maleato de Enalapril (genérico para hipertensão) e outros tantos. Mostrou sua vocação para a magia: conseguia suster-se com a pensão do falecido marido e ainda adquirir seus remédios. “Doenças de velho”, solta. Só um dos remédios custa ao menos 35 reais.
A empolgação a fez levantar involuntariamente a voz. Ria-se, ria-se. Um sorriso sibilante, barulhento e desesperadamente contagiante. Interrompeu apenas o som do sorriso, enquanto a feição permaneceu inerte. Apesar do muro de blocos parcialmente coberto por uma planta trepadeira, que tapava a paisagem da parte alta do parque, parecia contemplar o horizonte – ou contava blocos.
Lembrara da mãe que, pouco antes de morrer, com mais de 70 anos, ainda saía às seis horas da manhã para rodear a ciclovia do parque, com um carrinho de mão e retornava somente às dezessete, cheia de dendês para espremer, fazer azeite e dar, de graça, a quem aparecesse. Anacrônico pensar que alguém teria tal dedicação na atualidade. Não dá para imaginar uma senhora, sozinha ou acompanhada apenas de sua colega, também septuagenária, trepada em duas escoras de madeira, com saia longa amarrada nas pernas, facão na mão ou enganchado na boca, no meio do mato, sob a observação somente dos animais selvagens, como cobras corais, sucuris, cascavéis, escorpiões ou jacarés de papo amarelo. Morreu de morte natural, muito feliz e sem nunca ter sido picada por cobra.
Panela que queima o feijão no fogo e uma corrida lá pra dentro. Brincando, já chegara o meio-dia. Infelizmente, Zuquinha não tem mais tempo. Deixe-a cuidar da vida. Talvez a próxima visita seja de um vereador.

Ministro Lima

Noite de 04 de julho de 1979, Roque Lima Gonzaga,juntamente com sua esposa, Francisca Maria Santos Gonzaga e mais três filhos se preparam para tomar um terreno baldio em Pituaçu. Desempregado, sem meios de manter o aluguel que atrasara 3 meses, Seu Lima não hesitou em invadir o local, que era na época motivo de muitas disputas. Logo que chegou – e teve que armar o barraco no dia seguinte – foi alvo de diversas fofocas sobre a sua suposta boa condição financeira. “Diziam que eu era dono de várias casas de aluguel no Nordeste de Amaralina”, solta, com certo ar de revolta e ironia.
A Associação de Moradores de Pituaçu mandou, então, uma comissão à Amaralina para investigar o boato. Ao fim, descobriram que o pobre Lima era apenas mais um desempregado-pai-de-família que não tinha para onde ir. “Foi minha última opção”, conta Seu Lima, sobre a invasão.
Não demorou a surgirem tentativas de retirada do intruso. Lima já tinha feito a mudança e, de repente surgiu um “dono” para o terreno, que queria derrubar o seu barraco. O dono sem nome teve o apoio de alguns policiais que o acompanhavam. Mas, (os policiais) compadecidos com a situação de Lima, decidiram não retirá-lo. Logo, Lima se integrou à comunidade, participando ativamente da associação, sendo conselheiro durante anos e um dos fundadores do atual Conselho de Moradores do bairro, formado por uma dissidência da antiga associação.
Nascido em 12 de agosto de 1943, na cidade de Muritiba, a 114 km de Salvador, Lima, 1,76m e 82 kg, é casado há 35 anos. Teve 4 filhos, sendo que somente duas moças estão vivas. As circunstâncias da morte dos outros dois filhos, Seu Lima não revela. Apenas umedece o olhar quando cita os nomes dos filhos, transitando da alegria que aparentava ser habitual, para a paralisia da voz e o questionamento que surge. “É preciso falar, mesmo…”, sussurra.
Chegou em Salvador em 1955, ainda solteiro, buscando emprego. Eletricista, Lima trabalhou durante muitos anos no Pólo Petroquímico de Camaçari, até que aconteceu o acidente. Ano de 1998. O mundo girou freneticamente cinco vezes em apenas 34 segundos. Seu Lima viu a morte numa viagem a trabalho, quando estava na carona do carro da empresa em que trabalhava. Carro a cento e vinte por hora, um buraco, a capotagem, a morte do colega, o coma, o afastamento do emprego, dez anos de INSS. No final do ano deve fazer revisão para saber se está apto a voltar a trabalhar.
Lima ainda hoje dedica seu tempo ao serviço religioso e às lutas pela permanência. “A luta atual é contra a especulação imobiliária. Dizem que querem tirar a gente para construir prédios de vários andares aqui”, diz temeroso. Fez referência ao PDDU, visto nestas bandas como um demônio a ser exorcizado, em vista do bem comum. A comunidade, representada pelo seu conselho de moradores, já se manifestou contra o Plano por temer que tenham de ser retirados. “A gente já tem título de posse, escritura, tudo certo. Foi uma longa luta, até que o desembargador Mário Albiane deu ganho de causa para nós. Disse que tínhamos direito à moradia, por usucapião”.
O supracitado desembargador foi homenageado com uma praça que ganhou seu nome. Católico, Ministro da Eucaristia, Lima afirma que a presença da Igreja foi de suma importância. “A Igreja Católica sempre foi um aliado importante na luta por melhores condições de vida das comunidades do entorno do parque”, conta o padre redentorista Tadeu Pawlik, polonês, 70, na Bahia há 32 anos – pároco atual da Comunidade Nossa Senhora das Candeias, em Pituaçu. O padre é modesto na avaliação do papel da igreja, segundo Lima. Destaca que, se não fosse a intervenção do Cardeal Arcebispo Metropolitano de Salvador, Dom Avelar Brandão Vilela, que defendeu os moradores e rezou a primeira missa no local onde hoje é a praça Mário Albiane, certamente não teriam a possibilidade de permanecer no local. “Onde tem igreja, não tiram”, ressalta.
E o Alto do São João? “Está dentro do parque. Aí é preciso ver o que se pode fazer com aqueles que querem ficar, como fazer para que possam sobreviver, indenizar”.

Amaralina, Amaralino, Amaral

Fale com ele. Converse. Bata um papinho por dez minutos. É só descer uma ladeira da primeira travessa do rua do Alto do São João. Não, talvez você precise virar à esquerda, se não estiver voltando da rua principal. Com um pouco de sorte, você o encontrará no bar do Santos. Vai ser fácil reconhecer. É um senhor de baixa estatura – 1,61m –, falante, barriga protuberante, sorriso fácil, muito acanhado, gesticula pouco, com suas mãos quase sempre presas entre as pernas, se estiver sentado à frente do bar ou em frente à casa. Pensando bem, o bar fica em frente à casa.
Pronto: pergunte por Amaralina, ou Amaralino, ou Seu Amaral. Não pergunte por Aloísio Bispo dos Santos. Ninguém vai saber que é ele. Não precisa dizer que seu apelido é devido ao fato de que morava antes no bairro do Nordeste de Amaralina.
Geralmente usa um boné. Talvez quando você o encontrar, verá que um destes bonés está sujo de cimento. Provavelmente sejam respingos de uma colher de pedreiro ao lançar o cimento n’algum muro ou parede. Ele vai conversar contigo como se o boné não estivesse sujo. Tente disfarçar e atente para seu jeito simples, esqueça de seu bigode bem feito, fino, afastado um centímetro do nariz, formando uma linha contínua em volta da boca que se torna uma onda enquanto fala. Certamente estará de alpercatas, bermuda – que nem finge ser calça – curta, uma camisa de propaganda de candidato perdedor de eleições passadas.
Você pode ser enganado, cuidado. Muito cuidado, pois você pode pensar que está conversando com um velho aposentado, que chegou em 1963 para ajudar na construção da adutora do rio Joanes. Ele vai mostrar, com sua lucidez que, apesar de seus 69 anos, 15 filhos com a mesma mulher, Maria de Lurdes de Jesus, com quem convive a 49 anos ainda sem casar formalmente, e seus 16 netos, pode te surpreender. Sua casa fica no meio de uma ladeira escondida, só avistada quando se desce outra ladeira rumo ao desconhecido.
Sua memória está em dia. Lembra de tudo o que aconteceu na comunidade e é uma espécie de griot local. De imediato, lembra que antes o Alto era conhecido como Alto da Gostosa, Coqueiro Seco e outros nomes. São João veio com a igreja. Nasceu em Salvador, na rua da Formiga, no bairro de São Caetano e ficou até os seis meses em Sátiro Dias, quando voltou para Salvador. Ele vai te contar isso como se seis meses, em relação a 69 anos fosse um espaço de tempo relevante, o que deixa escorregar que viveu intensamente suas décadas, quatro e meia delas naquele mesmo casebre, com a mesma mulher. No começo, um barraco que abrigava seus primeiros filhos. Hoje, uma casa de dois andares, construída com muito esforço e sacrifício.
Diz ele que quando chegou já havia muitos outros moradores, mas, quando começa a citar nomes, adverte que todos já morreram. É um sobrevivente. Lembra que já viu algumas casas sendo demolidas, após indenizações irrisórias pagas aos moradores. Ele vai te contar que toda vez que tentavam retirá-lo, solicitava que o esquecessem. De tão escondida a casa, difícil seria lembrar dele.
Segundo este Seu Amaral, sua casa foi avaliada pela Conder, no último processo de desapropriação, em pouco mais de trinta mil reais. Pouquíssimo para uma família inteira. Além do mais, Seu Amaral gosta deste espaço longe de tudo, escondido de todos, naquele local. Gosta do silêncio. Do barulho dos pássaros à noite, pela manhã e à tarde. Gosta de pensar que terá seu lugar de retorno.
Não tem medo de ser retirado. Mas se ele tiver que sair, só mesmo obrigado. “Rapaz, eu não quero sair, não…”, diz, emocionado. Prefere ficar onde está, mesmo se tivesse a possibilidade de encontrar um local que fosse seu, legalizado. “Por meu gosto eu não saía não. Eu não faço questão. A moradia quem faz é as pessoas”.
Conheça Seu Amaral.



Bill Elliott e a TV que vale uma casa

Adquiriu o seu terreno trocando-o por uma TV. “Serve uma preto-e-branco?”, perguntou Beto de Bila à dona Maria, antiga moradora do local. “Serve”, respondeu Maria. O terreno onde hoje fica a casa de Beto de Bila – cujo apelido surgiu na infância, segundo ele, devido à ignorância do povo do interior, que achava seu pai assemelhado ao cowboy americano Bill Elliott. Como na sua família todos tinham o apelido de Beto, para diferenciar, chamavam-no de Beto de Bill Eliot, que virou “Beto de Bila”.
Alberto Peixoto da Silva, 54, veio da cidade de Cruz das Almas porque precisava fazer o vestibular para jornalismo na UFBA em 1970, fez o concurso público da Petrobrás como instrumentista, passou, mas decidiu ir trabalhar na Estileno Nordeste, empresa do pólo Petroquímico de Camaçari, que na época, pagava melhor. Engravidou a namorada e, como havia a necessidade de ter um espaço, uma casa, passaram a morar na Boca do Rio, quando conheceu o espaço que três anos mais tarde viria a ser o parque. Logo se encantou com o local paradisíaco e quis se instalar. Foi tomar um banho na lagoa de Pituaçu, quando ainda não era poluída. Encontrara uma ilha dentro de Salvador. “Falei: daqui não saio. Daqui ninguém me tira”, solta o clichê.
Saiu então à procura de uma casa para alugar na área, quando pediu para pegar atalho pelo terreno de Dona Maria. “Pode passar, aqui já virou caminho mesmo”, revidou revoltada. “Como assim, ‘caminho’?”, Beto se interessou. “Não aparece nenhum desgraçado para invadir esta área. Eu dei para minha filha e ela não quis”, disse Maria. “E tá de graça?”, Beto abriu o sorriso. “Arranje para mim uma TV velha que eu te dou”, respondeu Maria, achando que estava fazendo o negócio da China. Beto tinha uma TV preto-e-branco que iria dar para ela, mas decidiu comprar uma colorida e repassou à mulher. Assim comprou o passaporte para um endereço no paraíso.
O ex-dirigente sindical participou da diretoria do Sindiquímica, junto com o atual governador Jacques Wagner. É uma figura. Petista, parece muito com o presidente Lula: barbudo, carismático e eloqüente. Uma das diferenças é que Beto é magro, talvez porque percorre os quinze quilômetros da ciclovia todos os dias pela manhã. Nunca casou, mas tem dois filhos.
Recebeu o convite diretamente de Wagner para ser o articulador da relação do PMP com as comunidades do entorno do parque. Revelou-se, desde a posse, um grande defensor do tratamento igualitário que deveria ser dispensado às comunidades.
Sobre a delimitação do parque, Bila afirma que vai sair, mas não coloca data. Destaca que, com a reforma do Estádio Roberto Santos (Estádio de Pituaçu), o PMP perderá mais um espaço. Curiosamente, o administrador destaca que a Conder dará “como recompensa” todo um novo alambrado para o parque.
Questionado se a comunidade do Alto do São João iria ser retirada, logo refuta. “E a (Universidade) Católica vai sair? Por que não tem sentido o tamanho da área que foi doada à UCSAL. Não há um trabalho junto ao parque ou às comunidades que justifique esta doação. Ao contrário de coibir as invasões, estimula. O cara não tem onde morar e vê um terreno onde pode construir, ele constrói. É uma questão humanitária. O nosso grande problema aqui no parque, eu posso garantir, é a questão das ‘invasões brancas’, das pessoas que têm condição e invadem imensas áreas, desmatam mesmo”.
Beto de Bila trouxe números inacreditáveis sobre a violência no parque. A administração destaca que foram mais de 120 dias (os primeiros meses de 2008) sem nenhum registro de assalto na área do parque. Os moradores contestam. Segundo Seu Lima, muitos assaltos não são denunciados. Ainda seguindo o seu raciocínio, Bila atribui a queda nos índices de criminalidade dentro do parque a ações permanentes da nova administração. Uma das ações leva estudantes das escolas públicas do bairro, com os melhores desempenhos para visitas ao parque, com direito a andar de pedalinho e de bicicleta gratuitamente. Em outro projeto, traz os jovens para plantarem mudas de espécies nativas para reflorestar as áreas desmatadas.
Aliar a questão ambiental, da preservação da reserva ecológica à humanitária é um dever, segundo Beto. “Ajudamos a melhorar a relação dos moradores com o PMP, queremos que eles se sintam donos do parque, ajudem a preservar. Sem a ajuda da comunidade, todo esforço será inútil”. Mas, eles vão ter que sair? Esquiva-se Beto: “É o que eu tava dizendo, vai sair os grandes do Sítio do Pombal? Vai retirar os empreendimentos que estão desmatando horrores dentro do parque?”, Beto. "O perigo maior vem das novas construções na Avenida Paralela que destroem as nascentes do rio Pituaçu”. Não havia mais perguntas.

Texto 2: MUSSURUNGA E O CRESCIMENTO DA VIOLÊNCIA EM SALVADOR

Abaixo, para quem se interessar, um texto que fiz em relação ao "Chacina de Mussurunga" ocorrida no começo de 2008 e que vitimou 7 pessoas. Não foi publicado.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA – UFBA
FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – FACOM
CURSO SUPERIOR DE JORNALISMO
ESTUDO ORIENTADO EM JORNALISMO – PROF. MALU FONTES
JAIRO SANTANA

MUSSURUNGA E O CRESCIMENTO DA VIOLÊNCIA EM SALVADOR
A COBERTURA DA IMPRENSA BAIANA

NOVIDADE – A violência finalmente parece ter chegado ao conhecimento da imprensa, especialmente a local. Os casos de violência foram agendados a partir da repercussão do massacre de Mussurunga, chacina ocorrida na madrugada do dia 08.06, onde foram mortos sete trabalhadores. “Celebrada” como a maior chacina da história da Bahia, o noticiamento do fato sinaliza uma mudança na cobertura policial feita pelo jornalismo baiano. Baiano não está acostumado a ver assassinatos no atacado serem noticiados no BATV ou até mesmo no jornal A Tarde – e está aí o seu ineditismo.
Salvador “descobriu” que vive numa verdadeira guerra urbana através dos nossos noticiários televisivos e dos principais jornais do estado, o inexpressivo Tribuna da Bahia, o “inovador” Correio da Bahia e o “gigante” A Tarde. Diversas chacinas ocorrem com periodicidade inimaginável em Salvador e região metropolitana, sem nunca serem noticiadas. Neste caso, porém, houve uma ampla e diferenciada cobertura nos dois principais segmentos, o impresso e o televisionado, porém com um aspecto em comum: o não aprofundamento na questão da verdadeira causa da violência – entenda-se, a falta da presença efetiva do Estado nestes bolsões de miséria.

MAIOR DA SEMANA – Em primeira instância, devemos considerar o equívoco da imprensa ao qualificar o assassínio dos 7 de Mussurunga como “a maior chacina da história da Bahia”. Convenhamos: não temos como saber. Caberia o uso, por fidelidade aos fatos, da expressão “a maior chacina de que se tem notícia”, e não “a maior”. Talvez a imprensa tenha utilizado tal advérbio solto na frase para justificar o destaque conferido a um fato corriqueiro (banalizado) – especialmente nos bairros da periferia da cidade, muitos dominados por reis do tráfico. Os traficantes de Mussurunga não foram empossados na semana anterior ao massacre, vertendo o sangue dos proletários dias depois. Esta questão da constituição de um Rio de Janeiro berimbaleiro já era de pleno conhecimento, especialmente dos moradores locais, que não têm a quem recorrer. Moradores de Periperi, por exemplo, convivem com assassinatos e assaltos quase diários. Outras mortes não estamparam A Tarde/Tribuna/Correio.

CORREIO – Os jornais se ativeram na questão da violência como algo pontual e específico dos locais dos acontecimentos, transparecendo certo preconceito dos jornalistas em relação aos assassinados-chacinados. A exceção do impresso – no que tange à questão do preconceito e à busca do aprofundamento – ficou por conta do tratamento da notícia conferido pelo jornal soteropolitano Correio da Bahia, que trouxe uma boa cobertura, com um pé no jornalismo literário e outro no melodrama. Antes de chegar ao fato, trouxe uma boa definição da palavra chacina. Esta palavra, em si, já guarda muito preconceito e só a sua citação para tratar do assassinato brutal de pessoas já seria uma afronta ao bom senso.
Com um bom começo, o texto do jornalista Alan Rodrigues (Correio da Bahia. Aqui Salvador, 09.06.2008), prosseguiu muito bem elaborado, trazendo a memória das vítimas como seres humanizados, trabalhadores – e não um simples número da estatística oficial. Não fugiu do maniqueísmo, porém, não o assumiu por inteiro. A definição dos assassinados como indivíduos incapazes de ter alguma relação com os bandidos serviu apenas para sustentar a tese da omissão do Estado perante as mazelas e demandas da comunidade local. Dizer que alguns deles poderiam ter envolvimento com o tráfico somente provocaria na população o sentimento de expurgo de toda a bandidagem, o que o jornalista pareceu querer evitar. As vítimas eram, essencialmente, pais de família, trabalhadores que se divertiam após uma longa e pesada jornada de trabalho. Morreram porque o Estado, por omissão inexplicável, deixou-os a mercê dos bandidos.
Boa – apesar de sensacionalista – foi a escolha do título da notícia: “Sete pessoas morrem em chacina de Mussurunga”. Normalmente, os jornais impressos excluem a palavra “pessoas”, quando se referem às “pessoas” pobres. Como quem diz nas entrelinhas que os pobres não são pessoas. O Correio foi o impresso que melhor desenvolveu a cobertura dos fatos ocorridos, trazendo dados que puseram em xeque a refutação da comparação da baiana capital à carioca. Já no dia 12, o Correio prosseguiu a cobertura dos fatos aliando o acontecimento ao estado de coisas em que se encontra Salvador quanto à violência, deixando claro que se trata da omissão do Estado, que não qualifica nem arma suficientemente a sua polícia para enfrentar a bandidagem. Falou sobre a falta de aparelhamento, fazendo uma comparação interessante sobre a superioridade tanto numérica quanto de armamentos dos bandidos em relação à polícia baiana.

INFOTEINMENT – O Caso Mussurunga forneceu bons elementos para o chamado jornalismo Infoteinment. Um bom motivo para o cine-deboche. O apresentador-eterno-candidato Raimundo Varella deu amplo destaque para a tragédia, com ênfase na questão dos assassinatos e das circunstâncias da morte. Bocão, logo em seguida, teve quase um orgasmo vocal, tomando quase todo o seu programa com as críticas à falta de segurança no local e ao domínio do tráfico, intercalados com a propaganda do Supermemo e a distribuição de prêmios em dinheiro (“vamo (sic) faturar, o fumo vai entrar…”). Impressionante que o repórter Mão Branca não tenha sido o escolhido para cobrir o caso. Espera-se que, quando capturarem o chefão Jerry Adriani, ele vá ajeitar a camisa do meliante.
Entre gritos, propagandas e choros de alegria e desespero, Bocão seguiu até o fim do programa, exibindo, em plena hora do almoço, closes nos cadáveres. Bom serviço inicial – é necessário escancarar que, na cidade, ocorrem tais coisas –, desserviço ao misturar o assunto sério, que poderia ser mais bem aprofundado (com muito tempo disponível, já que não havia conteúdo algum no programa), com brincadeiras e assistencialismo barato. Uma informação desprovida de interesse na formação de opinião qualificada.

TV BAHIA – A boa surpresa também foi a TV Bahia noticiar os assassinatos de Mussurunga. Uma inovação da liberdade de imprensa, talvez advento da primeira campanha eleitoral após o repentino desaparecimento de ACM. Ou simples visão de mercado: não se pode ficar de fora do grande filão de audiência. Ao menos a cobertura não se resumiu a mostrar corpos. Cabe, porém, o questionamento que surge: o que é mais eficaz, no sentido de provocar uma reação da população contra a falta de segurança na cidade?
Varella e suas réplicas, seja da TV Itapoan ou os casemiros da vida, trazem a notícia crua, o que, a priori, causaria maior impacto. Porém, por suavizarem a notícia com suas caras, bocas e propagandas de emagrecedores (como se na Bahia o povo faminto precisasse de emagrecedor) e chás, torna a notícia que realmente importa – o crescimento da violência em Salvador – uma mera coadjuvante do programa que tem o concurso da Garota do Créu ou similares. Por outro lado, a TV Bahia, com seu gesso habitual na notícia não destaca os fatos relevantes, não se utiliza do status conferido pela liderança de audiência para provocar, incitar, forçar a mudança de postura dos governantes quanto ao assunto que deveria ser questão central de qualquer governo que coloque a vida do cidadão como prioridade.

CARA DA BAHIA – Ficou claro que o jornalismo baiano ainda carece de mais espaço para tratar dos fatos da terra. Precisamos reaprender a cobrir os acontecimentos da Bahia. E cobrir não se resume a dizer que aconteceu, mas mostrar por que acontece. Isto não faz a TV Itapoan, com seus dois Varellas, nem a TV Bahia – apesar de não ter um Varella para atrapalhar –, por absoluta falta de tempo. Interessante que, apesar do pouco tempo, os telejornais baianos sempre arrumam tempo para mostrar os fatos dos estadões brasileiros. Precisa-se parar de dar destaque ao Rio de Janeiro-SP – a grande mídia já o faz – e enfatizar mais o cenário local. Desenvolver a cultura do tratamento da notícia com feições baianas, e não simplesmente traduzir os pensamentos da Folha de São Paulo ou Rede Globo, como ainda faz a TV Bahia.

Texto 1: DIVERSIDADE DE PENSAMENTOS SOBRE A CULTURA

Abaixo, resumo solicitado pela disciplina Comunicação e Cultura, referente a um texto de Paulo Miguez. Este texto foi publicado no site do Ministério da Cultura no mesmo ano (2007).

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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
FACULDADE DE COMUNICAÇÃO
CURSO SUPERIOR DE JORNALISMO
DISCIPLINA: COMUNICAÇÃO E CULTURA
DOCENTE: GIULIANA KAUARK






JAIRO N. SANTANA








RESUMO
A CONVENÇÃO DA UNESCO SOBRE A DIVERSIDADE CULTURAL
PAULO MIGUEZ











Salvador
2007.2

DIVERSIDADE DE PENSAMENTOS SOBRE A CULTURA
Em “A Convenção da Unesco sobre a Diversidade Cultural”, Paulo Miguez, secretário de Políticas culturais do Ministério da Cultura em 2005, traça o perfil do momento histórico-cultural que impulsionou a realização da referida convenção e a posição e influência da delegação brasileira expressa no documento.
O assunto-título que seria abordado na Convenção apareceu, contou Miguez, nos documentos finais da reunião anual (2000) do RIPC (Rede Internacional sobre Política Cultural), formada por mais 60 ministros da Cultura de todo o mundo, alcançando assim, finalmente, projeção mundial. No ano seguinte, a UNESCO, em sua Conferência Geral adota a “Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural” e esta última passa a ser considerada um patrimônio comum da humanidade. Ficou patente a necessidade, segundo o plano de ação adotado, de se formular um instrumento legal que advogasse sobre o tema: este viria a ser a própria Convenção. Nesta Conferência, a UNESCO, através de seus países-membros, reafirma-se como local propício para o debate, onde os diversos setores das sociedades (no âmbito governamental e não-governamental) poderiam se encontrar para buscar a convergência de conceitos, objetivos e políticas para o fortalecimento da diversidade cultural.
A UNESCO, a partir de então, segue um caminho que destoa de um caráter puramente (ou essencialmente) conceitual (voltado para a formulação de normas), para propor medidas práticas que versassem acerca de temas espinhosos, tais como a proteção dos conteúdos culturais e expressões artísticas.
Seguiram-se as obrigações burocráticas de praxe (tais como o convite aos especialistas para a elaboração do texto inicial, discussão com os Estados-membros sobre este anteprojeto), até que, em Setembro de 2004, começou-se, de fato, o processo de negociação intergovernamental para a elaboração e possível adoção pela 33ª Conferência Geral da UNESCO (2005), da Convenção Internacional para a Proteção da Diversidade dos Conteúdos Culturais e Expressões Artísticas, que, apesar do título, sob consenso, deveria abordar, além da “proteção” a “promoção” da diversidade cultural. Predominava entre os Estados-membros a reafirmação da natureza econômica e cultural dos bens e serviços culturais. Havia a preocupação de muitas delegações (a brasileira, dentre elas) de atribuir à Convenção a forca capaz de transformá-la num verdadeiro marco regulatório nos temas sob a sua esfera nos foros internacionais.
Quanto às posições brasileiras (cujas manifestações eram aguardadas com grande expectativa, segundo Miguez), como não poderia deixar de ser, foram no sentido da defesa ferrenha da diversidade cultural, da necessidade do combate aos efeitos nocivos da mercantilização da cultura (a cultura não poderia ser encarada apenas como um produto), mas também alertava para o perigo do relativismo cultural aliado a fins políticos e econômicos. No plano conceitual, o Brasil defendeu o aprofundamento da ligação entre cultura e desenvolvimento e clareza na definição do tratamento diferenciado a ser aplicado aos países em desenvolvimento, quanto às suas trocas culturais.
Houve uma demonstração de prestígio da delegação brasileira, recebendo a citada delegação grande apoio às posições defendidas: foram incluídos no texto da Convenção muitos princípios básicos da política cultural brasileira, tais como a defesa da soberania nacional na formulação e execução das políticas culturais de proteção e promoção da diversidade cultural, defesa do equilíbrio de forças no sistema internacional de trocas de bens e serviços culturais, e defesa das minorias e populações tradicionais (povos indígenas e quilombolas).
As definições e termos utilizados no texto geraram polêmica. O termo “proteção” (por ter uma possível conotação comercial, sob o ponto de vista, especialmente, dos EUA, Japão, Índia e México), bem como “bens e serviços culturais” (“aqueles cujo valor simbólico precede o econômico”) e “conteúdos e expressões culturais” foram alvo das mais calorosas discussões. O Brasil, assim como a maioria dos países, defendeu a manutenção dos termos, que já eram lugar-comum nas fraseologias da UNESCO.
O Brasil (em parceria com a China e África do Sul) recolocou e reiterou a indissociável relação entre a cultura e o desenvolvimento, reconduzindo o tema à centralidade dos debates.
Mas a relação entre a (até então) futura Convenção e os demais instrumentos internacionais (leia-se OMC e OMPI) ganharam notório destaque. O quarteto (EUA-Japão-Índia-México) tentou incluir no texto final limitações aos dispositivos que impactassem negociações junto à OMC: não poderia haver favorecimento aos bens e serviços culturais nacionais. A maioria dos países, porém, apoiou um texto que abarcasse todos os aspectos das manifestações culturais, com cunho comercial ou não.
A atuação brasileira foi na contramão da globalização que homogeneíza a cultura e sufoca a diversidade cultural. A diversidade simplesmente não existiria se não houvesse instrumentos legais, tais como a Convenção, para garantir a proteção de manifestações culturais nos “grotões” do mundo, bombardeado diuturnamente na guerra pela imposição das culturas dos mais favorecidos aos desprovidos de recursos (mas mercado consumidor) para a divulgação das suas tradições e ritos mais representativos. Assim, a Convenção deveria contemplar, essencialmente, a construção de condições reais para a manutenção e promoção da cultura das nações mais pobres. O texto caminhou neste sentido. Texto é um conjunto de letras, pô-lo em prática é um desafio que se apresenta para a contemporaneidade.



Meus textos...

Pessoas,


Em atenção a alguns pedidos, a partir de hoje tomo a liberdade de publicar meus textos para exame de quem se sentir à vontade para tanto...

Jairo Santana