terça-feira, 21 de abril de 2009

Vida: substantivo e verbo

Disse Calernane: "É tudo que acontece entre o nascimento e a morte". Pequeno, sábio e equivocado. O que estamos habituados a perceber como "vida" nada mais é do que ela, tornada verbo, sendo conjugada. O que ele fala não é do substantivo "vida", mas do verbo "viver".

Neste espaçamento de tempo "entre o nascimento e a morte", as pessoas "vivem". Mas – valei-me Deus do céu! – a vida é muito mais do que cumprir ou preencher este espaço.

Se eu acreditar que a vida começa no nascimento, deixo de crer que somos especiais, desacredito no milagre da escolha – milhões de espermatozóides perderam a corrida para que eu me formasse dentro daquele óvulo que decidiu maturar justamente no momento em que a outra metade de mim corria ao seu encontro.

Antes mesmo da competição pela existência, começou o milagre da junção das pessoas. Como saber que alguém, dentre seis bilhões vai encontrar seu par, ainda que momentâneo, e “produzir” outrem? Mais: este outro ser será “outro” – na acepção plena da palavra. Terá constituição genética semelhante à dos seus pais, mas será completamente diferente. O rearranjo (das adeninas, citosinas, timinas e guaninas) fará um novo DNA. Um novo ser.

A vida, portanto, já existia, antes que pudéssemos conjugá-la.

Voltando ao Calernane: não há motivo qualquer para dizer que deixamos de conjugar a vida quando se acabam os tempos verbais. As palavras são limitadas pela nossa incapacidade de notar que a vida é mais do que ela, em si. Então, delimitamos o que não sabemos se tem limite. É como uma fórmula indecifrável de Física: não sabemos o que ela significa ou quer significar. Temos dois caminhos: assumimos que a interpretação corrente é a correta e a decoramos, porque matematicamente chegamos ao resultado proposto ou reconhecemos nossa incapacidade de compreensão da fórmula e buscamos entender os caminhos que o físico levou para chegar a aquela conclusão. De vez em quando, surge um maluco que descobre que as leis da física estão erradas.

Enquanto não soubermos se a vida realmente acaba, não podemos afirmar que ela termine. Quando se findam as palavras, surgem os neologismos. Eis que a morte é o último estágio da vida conjugada do jeito que se conhece.

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